(Narrado pelo Ruben)
O treino tinha corrido lindamente e no final, antes de ir tomar banho, vi que tinha uma mensagem no telemóvel.
" Amor, os meus pais convidaram-nos novamente para jantar com eles, convidaram também o resto do pessoal. Eu não tive coragem de recusar, espero que não fiques chateado, as meninas aceitaram, vens cá ter com os rapazes?
Amo-te"
O treino tinha corrido lindamente e no final, antes de ir tomar banho, vi que tinha uma mensagem no telemóvel.
" Amor, os meus pais convidaram-nos novamente para jantar com eles, convidaram também o resto do pessoal. Eu não tive coragem de recusar, espero que não fiques chateado, as meninas aceitaram, vens cá ter com os rapazes?
Amo-te"
Despachei-me rapidamente e quando já estávamos prontos fomos ter ao hotel. Todos eles ficaram agradados com o hotel e levei inclusivamente com algumas "bocas" do pessoal.
- Xiiii mano, saiu a sorte grande p'rá você...
- Cala-te com isso puto!
- Ele tem razão, a Clarinha tem aqui um investimento... Puto, quando eu quiser fazer uma surpresa à Andreia, dás uma ajudinha a convencer a Clara?
- Vocês não se metam com ideias, eu não tenho nada a ver com isto. Quando quiserem alguma coisa falam com a Clara.
- Pô mano, que mal tem cê dar um ajudinha ao cara?
- Não tem mal nenhum, mas são coisas com que eu não tenho nada a ver. Se querem alguma coisa falam com a Clara, já disse...
Eles não disseram mais nada e por isso resolvemos entrar. Já tinha chegado quase toda a gente ao mesmo tempo que eu, os pais da Clara apareceram passado alguns minutos e eu estranhei não haver qualquer sinal da Clara.
- Olá Ruben, tudo bem? - cumprimentou-me a D. Fátima.
- Tudo bem D. Fátima e convosco?
- Tudo bem rapaz... - respondeu-me o Sr. Raul.
Apresentei o resto do pessoal aos pais da Clara e todos eles os cumprimentaram, agradeceram o convite e elogiaram o hotel. A ausência da Clara não passava despercebida, já muitas das meninas me tinham perguntado por ela.
- D. Fátima, sabe da Clara?
- Ela ficou ali no bar enquanto nós nos fomos arranjar para o jantar.
- No bar ela não está não, a Sarinha veio de lá agora... - constatava o David.
- E lá fora ela não está? - perguntava a D. Fátima.
- Boa noite pessoal! - dizia a Guigui mal entrava.
Todos a cumprimentamos e eles juntaram-se a nós.
- Então, onde anda a Clarinha? - perguntava ela.
- Pois, não sei... A D. Fátima diz que ela ficou no bar, mas a Sara já lá foi e ela não está lá...
- Ui, então cá para mim vem aí surpresa...
- Surpresa?! - perguntei.
- Sim, ou muito me engano ou ela foi para a cozinha...
- Então vamos indo para a sala de jantar e já perguntamos por ela. - pedia o Sr. Raul.
Todos os seguimos e sentámo-nos numa mesa enorme que estava preparada, tínhamos a sala praticamente para nós. O David sentou-se do meu lado direito com a Sara à sua frente e o Javi do lado esquerdo, tendo também a Guigui em frente. Não havia maneira da Clara aparecer o que já me estava a deixar chateado, resolvi então mandar-lhe mais uma mensagem.
"Amor, já cá estamos todos, os teus pais disseram para nos irmos sentando... Onde andas? Ainda demoras?"
(Narrado pela Clara)
Ouvi o toque de mensagem quando já estava a chegar à sala de jantar, deduzi que fosse o Ruben, desci as escadas e vi a mesa enorme já com todos sentados...
- Finalmente! - dizia a Guigui - Mas onde é que te meteste? Convidas o pessoal para jantar e depois desapareces...
- Ó Guigui, nem comeces...
- Não é não comeces, ainda se fosse para te ires pôr toda bonita...
- Peço desculpa a todos, distraí-me a ler e nem dei pelo tempo passar... - nunca gostei de mentir, nem nunca tinha tido jeito nenhum mas naquela altura não me ocorreu nada melhor para dizer e por isso disse a primeira coisa que me passou pela cabeça. Sentei-me no lugar que estava vazio à frente de Ruben e dei-lhe um beijo, cumprimentei também as meninas que estavam ao meu lado e dei um "oi" ao resto do pessoal.
O jantar correu super bem e na altura das sobremesas o Simão dirigiu-se à nossa mesa com um prato.
- D. Fátima, minha mãe fez esse brigadeiro hoje. Queria sua opinião se poderia colocá-lo nas sobremesas aqui das refeições.
- Posso provar?
- Claro, trouxe mesmo para a senhora provar.
A minha mãe agarrou num e deu-lhe uma pequena trinca...
- Hum!! Está óptimo! Clarinha tu que adoras brigadeiros, tens que provar estes...
- Ela já provou senhora e pela cara que fez, me pareceu que amou...
Como era possível aquela criatura ser tão metida! Ele já me tinha tirado do sério anteriormente e depois de já o ter despedido, tive que voltar com a minha palavra atrás, pedi-lhe para parar de se meter, mas parece que a nossa conversa não surtiu grande efeito.
- Estão bons sim, eu própria já fui à cozinha dar os parabéns à D. Aurora, ela cozinha muito bem.
- Simão, pode então dizer à sua mãe que sim, pode incluir os brigadeiros nas sobremesas... Mas também tem que trazer mais uns quantos, acredito que há mais gente a querer prová-los...
- Trago já senhora... Com licença.
Assim foi, não demorou muito e lá apareceu ele com mais pratos com brigadeiros. Todos disseram maravilhas e depois de mais alguma conversa e brincadeiras, os meninos tiveram que ir embora. Embora a viagem no dia seguinte não fosse longa, os próximos dois dias iriam ser puxados para eles, precisávamos seguir em frente na Liga Europa para ficarmos mais perto de Dublin. Já todos se tinham despedido e agradecido o jantar aos meus pais, faltava apenas eu...
- Amanhã também vais para a Alemanha? - perguntou-me o meu pai.
- Não posso, tenho que tratar das coisas na empresa.
- Está bem, então vens jantar connosco?
- Não sei pai, amanhã queria ficar em casa. Não se importam de jantar sozinhos?
- Claro que não filha, sabes como é o teu pai, está tanto tempo longe de ti que depois quando está mais perto não te quer largar. E depois a mãe galinha sou eu...
Eu ri-me com aquela afirmação, estava a ser óptimo ter os meus pais perto de mim. Nestes dias tinha-me apercebido da falta que eles me faziam, dos momentos de brincadeira, de cumplicidade, de aprendizagem e dos mimos... Sim, embora já fosse bem crescidinha os mimos da mãe sabem sempre muito bem e nestes dias eu andava a ficar mal habituada...
- Bem, eu vou indo... Beijinhos, amanhã ligo... - despedi-me e sai, ao pé dos carros ainda estavam o Ruben, o David e a Sara.
- Então amiga vais lá para casa hoje? Aviso-te já que a Catarina seguiu para lá com o Aimar, se queres um conselho aproveita aí a casa do menino porque a nossa hoje deve ter movimento...
- Eu não acredito, mas agora que se assumiram não se largam?!
- Quem te ouvir falar até pensa que não queres uma boa desculpa para passares a noite aqui com o teu homem...
- Mano, eu não censuro ela... Deve estar bem farta de aturar um cara chato feito você...
- Hey, não metas palavras na minha boca, sim?! Chato és tu, a Sarinha é que é uma santa de ainda te aturar.
Depois das minhas palavras ele olhou a Sara como que a pedir para ela dizer alguma coisa.
- Ué amor, cê não vai falar nada? Sou chato mesmo? Cê 'tá farta mesmo de mim amor?!
- Ohh, tadinho dele... - brincava o Ruben.
- Não tenho nada para dizer, quem te manda meteres-te com eles?
- Pô amor, assim fico traumatizado, pensando que você não me quer mais...
- Deixa lá a fita e vamos embora, amanhã tens uma viagem para fazer...
- ... e um jogo para ganhar no dia seguinte...
- Pois, diz isso aí p'rá esse cara, ele normalmente é que 'tá sempre brincando...
- Que mentira David...
- Mesmo David, a tia Rê ensinou que não podes mentir... - gozava o Ruben.
- É, né? A tia Bela ensinou o mesmo para você, mas você não aprendeu bem a lição.
- Pelos vistos nenhum de vocês aprendeu... - disse eu.
- Pois, porque a brincar estão sempre os dois... - completou a Sara - Mas vamos é embora, estamos todos cansados e precisamos de descanso. Beijinhos meninos...
- Xau...
O caminho para casa foi feito em silêncio, a conversa com o Simão não me saía da cabeça e se o Ruben imaginasse aquela conversa também não ia achar piada nenhuma... Quando chegámos a casa deitámo-nos e dormimos, neguei algumas das subtis tentativas dele, não me sentia bem em lhe esconder algo que sabia que o ia deixar chateado e por isso mesmo o envolvimento tornava-se difícil...
No dia seguinte acordei bastante cedo e depois de tomar banho fui até a padaria buscar pão fresco, preparei o pequeno almoço, com tudo a que ele tinha direito e já quando estava a terminar vejo-o a aparecer na sala.
- Hum, o meu menino vem todo bonito e bem cheiroso...
- Sabes que gosto pouco dessas lamechices Clarinha... - disse ao agarrar-me para me dar os bons dias.
- Ok, senão gostas, senta-te e come. - disse-lhe afastando-me.
- Também não precisas de ser assim...
- Assim como? Não gostas de lamechices, então senta-te e come... - saí da cozinha sem lhe dar qualquer hipótese de dizer o que fosse. Fui até ao quarto acabar de me arranjar e depois fui até à cozinha novamente.
- Vais ficar chateada comigo por uma parvoíce?
- Não, não vale a pena...
- Ah bom, sabes bem que não gosto dessas mariquices...
- Vais continuar? É que por mim a conversa já terminou, agora se quiseres continuar estás à vontade, mas continuas sozinho porque eu tenho mais que fazer...
- Clara...
- Clara nada, estava a ser carinhosa contigo, preparei-te o pequeno almoço e quando chegas aqui elogio-te e tu sais-te com uma dessas...
- Desculpa, obrigada pelo pequeno almoço...
- Não tens que agradecer, fiz porque quis.
- Deixas-me no estádio? Assim não levava o carro...
- Sim, mas despacha-te que ainda tenho que passar em casa.
- Ok, vou só buscar a mala.
Enquanto ele foi acabar de arrumar as últimas coisas na mala, eu aproveitei e arrumei a cozinha.
- Estou pronto, vamos?
- Sim.
Saímos de casa e fomos no carro dele em direcção ao estádio, quando lá chegámos ainda só lá estava o Mister.
- Vá, eu vou indo... Boa sorte e cabeça, nada de jogar só com o coração...
- Combinado, quando aterrar ligo-te...
- Fico à espera, amo-te... Já estou cheia de saudades tuas...
- E eu tuas pequenina, mas vai passar rapidinho.
Ele abraçou-me e beijou-me. Eu, sem saber bem porquê, parei aquele beijo.
- Clara, o que se passa?
- Nada, porque perguntas?
- Passa-se alguma coisa sim! Ontem afastaste-te, hoje afastas-te outra vez, o que é que aconteceu?
- Não aconteceu nada, está tudo bem...
- Clara...?!
- Amor, sabes bem que detesto despedidas, custa-me. Ainda não foste e eu já estou a morrer de saudades...
- Tonta... Anda cá! - abraçou-me novamente - Eu amo-te sua doida, na 6º feira já cá estou outra vez...
- Eu sei, mas custa... - ficámos mais algum tempo abraçados, até que ouvimos um carro a chegar.
- Cês são mesmo muito mariquinhas... Larga ela cara!
- Começou cedo hoje... Bom dia David, bom dia Sara...
- Bom dia Clarinha. Não lhe ligues, já sabes que implicância é o nome do meio dele...
- É, né?... - brincava também o Ruben.
- Pessoal eu tenho que ir indo, ainda tenho que ir a casa... Boa viagem David e cabecinha, temos que ganhar...
- Fica descansada... - disse-me.
- Amor vai com cuidado, sim...? - pediu-me o Ruben.
- Sempre com cuidado. Ligas quando aterrares?
- Sim... Amo-te...
- Eu também...
Despedi-me de todos e fui embora. Depois e passar por casa fui para a empresa, tinha muitas coisas para organizar.
- Bom dia Clara.
- Bom dia. Tudo bem consigo Dr.?
- Tudo bem... Clara, precisava de falar consigo, pode chegar ao meu gabinete?
- Claro que sim, vou só pousar as coisas na minha sala e já vou ter consigo.
- Obrigada.
Assim foi, depois de largar a pasta e o casaco no meu gabinete segui para o dele. A conversa correu bem, pediu-me para entregar o projecto ao Tiago e para encaminhar as coisas todas rápido e para entregar tudo o que fosse para fazer à Bá, pois ela mais tarde iria instruir a pessoa que me iria substituir. O resto do dia foi bastante atarefado, acabei mais algumas coisas que tinha a meu cargo e no final do dia, como o Ruben não estava, resolvi passar no lar pois estava cheia de saudades dos miúdos...
- Boa tarde!
- CLARAAAAAA!! - gritava a Luisinha mal me viu.
- Olá minha princesa linda, estás boa?
- Estava com saudades tuas, pensei que não gostasses mais de mim...
- Isso é impossível meu anjo... Eu adoro-te princesa...
Um sorriso formou-se no seu rosto e os seus braços envolveram o meu tronco.
- Eu também te adoro Clara...
- Então e a minha princesa, já tomou banho?
- Já, estamos à espera dos rapazes para ir jantar. Vais jantar connosco? - perguntou entusiasmada.
- Humm... Não sei se há comida para mim... - brinquei.
- Há sim, mas se não houver eu dou-te da minha. Podes ficar ao meu lado?
Eu respondi-lhe que sim e ela ficou eufórica. Depois do jantar fomos jogar um jogo, os miúdos brincaram mais um pouco, mas como era normal na hora de dormir fizeram fita. A Luísa então era das que mais triste ficava na hora de dormir, mas neste dia resolvi quebrar umas das regras da Joana e fui-me deitar com ela para adormecer mais rápido.
- Clara?!
- Princesa tens que dormir... Vá lá, tens que te portar bem senão a Joana zanga-se comigo. Sabes que lhe prometemos que ias dormir logo...
- Eu sei, mas eu queria-te fazer uma pergunta.
- Só uma? - olhei para ela e acenou-me afirmativamente com a cabeça - Então diz lá...
- No outro dia na escola, gozaram comigo porque disseram que eu não tinha mãe nem pai...
Aquilo apanhou-me de surpresa, as crianças podiam ser muito cruéis umas para as outras sem se aperceberem do que realmente estavam a fazer.
- Sabes que isso não é verdade, a tua mamã pode não estar contigo, mas sabes que quem cuida de ti, gosta de ti como se fosse tua mãe...
- Eu sei, mas sabes o que é que eu disse?
- O quê?
- Que tu eras a minha mãe e o Ruben o meu pai...
- Princesinha, é verdade que eu e o Ruben gostamos muito de ti. Mas nós não podemos ser teus pais querida...
- Mas porquê? Eu gosto tanto de vocês...
- E nós também gostamos muito de ti, mas sabes que quem decide isso são aqueles senhores que estão no tribunal...
- Mas nós não lhe podemos pedir?
- Isso é muito díficil meu anjo, eu e o Ruben nem somos casados...
- E quando casarem? Posso ser vossa filha?
- Meu anjo, eu adoro-to e se podesse juro que ias comigo para casa e ficavas lá para sempre... Mas ainda não pode ser meu amor e agora vais é dormir, a Joana depois fica zangada comigo e depois não posso vir mais adormecer-te...
- Está bem... Até amanhã, adoro-te muito...
- Eu também te adoro princesa...
Passados alguns minutos ela adormeceu e eu resolvi levantar-me e ir embora. Quando cheguei a casa não estava ninguém, achei estranho mas quando cheguei ao frigorifico vi que tinha lá um recado.
"Clarinha, fomos as duas jantar ao Bairro Alto, se quiseres ir lá ter liga-nos... Devemos chegar tarde, bjs"
Eu não me apeteceu ir ter com elas por isso depois de um banho bastante demorado lá fui eu comer um iogurte e sentar-me a ver um pouco de televisão. As horas foram passando e quando dei por mim estava um enorme barulho naquela casa...
- Hey!! Mas vocês passaram-se ou quê?!
- Clarinha, nem sabes a noitada que perdeste... - informava-me a Catarina.
- Pois, mas também não estou interessada! Vejam é se fazem menos barulho porque caso não se lembrem, temos vizinhos...
- Estás muito chatinha, Clara...
- E tu estás muito alegre, Sarinha...
- Nem sabes tu o quanto!!
- Prefiro não saber mesmo.
- Clarinha, porque não foste ter connosco? Lembrámo-nos tanto de ti... - dizia a Catarina já deitada no sofá.
- Imagino, isso deve ter acontecido na hora de vir para casa, nenhuma de vocês estava em condições de trazer o carro, logo lembraram-se aqui da Clara...
- Por acaso... - constatou a Sara, que arrancou logo de seguida uma gargalhada das duas.
- Olha eu vou dormir e vocês deviam fazer o mesmo. Até amanhã...
- Xau xau Clara...
- Xauzinho...
O dia seguinte foi normal, adiantei mais uma coisas do trabalho e no final do dia fui para casa, elas já lá estavam vestidas a rigor para o jogo...
- Boa noite meninas.
- Oi...
- Olá Clara. Olha, encomendámos pizza para o jantar, espero que não te importes...
- Claro que não... Então, os meninos estão nervosos?
- Olha, o David bem disfarçou, mas estava um bocado...
- O Pablo não sei, ele é tão caladito... Opah, é completamente o oposto de mim e se queres que te diga nem sei se está nervoso ou não, falou normalmente... Então e o Ruben? Uma pilha de nervos, não?!
- Ya, quando falei com ele consegui acalmá-lo um bocado, mas já sei que já deve ter voltado a ficar nervoso outra vez. Olhem, já volto, vou só tomar um duche...
Quando entretanto voltei o jogo estava quase a começar.
- Demoraste Clara!
- Tive a descontrair um bocado, tenho andado cansadíssima, nem tempo para almoçar tenho. Isto de deixar a empresa está a dar cabo de mim, hoje até era para ir à faculdade, mas não tive pachorra...
- Pois é, agora que voltaste para a faculdade como é que vais fazer? Lá no hotel não vai ser fácil... - comentava a Sara.
- Pois não, acho que lá vou eu adiar outra vez o mestrado...
A conversa ficou por ali, pois o jogo estava a começar. No intervalo jantámos e no fim estávamos todas felizes, o resultado tinha sido óptimo e estávamos a caminho da próxima fase. O Ruben ligou-me no fim do jogo, quando estava a caminho do hotel, disse-me que eu não precisava de o ir buscar, mas que não abdicava de almoçar comigo. No fim do telefonema fui-me deitar.
No dia seguinte levantei-me muito bem disposta, o Ruben ia voltar e confesso que até já tinha esquecido a história do Simão. Há hora do almoço despachei-me a sai, fui ter com o Ruben ao parque das nações e almoçámos por lá, depois de mais uma tarde de trabalho fui para casa dele, pois tinha-me pedido para ficar lá, para matar todas "aquelas" saudades mais privadas...
Os dias seguintes foram uma correria mas consegui sobreviver, deixei a empresa no fim da semana seguinte. O fim-de-semana não foi nada calmo, como eles jogavam em Braga, nós resolvemos meter-nos à estrada e ir ver o jogo ao estádio. A Guigui passou-se a ver o jogo, ainda por cima quando o Javi foi expulso. Foi dificil segurá-la e como estávamos junto às claques foi ainda mais difícil acalmá-la. O 1º golo veio com aquela suposta falta e o 2º veio mais tarde, os nossos jogadores já não conseguiram fazer mais nada, o jogo acabou por não nos correr bem e fomos retirados por completo da luta pelo título. Quando falei com o Ruben no fim do jogo, ele estava desolado, embora soubessem que era já praticamente impossível ganhar novamente o campeonato, perdermos aquele jogo roubados daquela forma foi mais uma desilusão, sabíamos que dali para a frente teríamos de nos concentrar na Taça de Portugal, Taça da Liga e na Liga Europa, pois não podíamos deixar escapar mais nenhuma daquelas competições. A semana seguinte foi calma, a maior parte do tempo passei-o no hotel onde o meu pai me ajudava na integração, evitei ao máximo cruzar-me com o Simão. Estive praticamente sempre metida no gabinete e só saía de lá para almoçar, coisa que fazia questão que não acontecesse no hotel, na maior parte dos dias ia ter com os rapazes ao bar da Guigui e almoçávamos lá todos. Mais uma semana se passou e eu tive uma noticia que não esperava, os meus pais teriam que voltar para o Algarve pois tinham uma situação no hotel que a minha irmã não podia resolver sozinha. Resolvi naquela semana começar a tratar do gabinete, pesquisei em vários sites decorações e também fui a algumas lojas. Andei durante alguns dias a evitar falar com o Simão, mas houve um que ganhei coragem e mandei-o chamar, não podia adiar mais, tinha mesmo que começar as obras para estar tudo pronto o mais rápido possível.
- 'Tou vendo que andou sentindo minha falta...
- Já te avisei antes, mas eu faço-o novamente. Compreendo a tua situação mas eu não vou admitir mais faltas de respeito, sem ser despedindo-te, há outras formas de te fazer a vida negra neste hotel, por isso limita-te a fazer o teu trabalho e esquece que eu existo...
- Pô gata, isso é impossível, cê mexe comigo...
- Simão, eu estou a falar a sério...
- Sério nada, cê gosta quando eu falo essas coisas para você, aposto que o metido a jogador de futebol não mexe com você desse jeito...
- Simão, juro que estou a perder a paciência...
- Não faz assim gata... - conforme ia falando, aproximava-se de mim - Não imagina, mas cê mexeu comigo mal eu vi você. Larga de ser menininha eu sei que você sente a mesma vontade que eu... - ele aproximou-se mais e eu não me conseguia mexer, sentia-me como que pregada ao chão. O meu coração batia rápido e minha respiração estava acelerada, eu queria muito sair dali, mas havia qualquer força que não me deixava.
Senti a sua mão na minha face e tremi, vi a sua boca aproximar-se da minha e fechei os olhos, foi então que na minha cabeça vi o Ruben, vi o sorriso dele nessa manhã quando se despediu de mim e voou com destino a Paris. Foi então que caí em mim e saí de lá a correr, cheguei ao elevador e não me lembro quantas vezes carreguei naquele botão, queria sair dali o mais rápido possível, tinha que me afastar daquele sitio, tinha que me afastar do Simão! Ele tinha um poder sobre mim que eu não percebia, não o amava, não me sentia atraída por ele, o único sentimento que existia era ódio. Odiava-o pela forma como me tratava, odiava-o pela postura que mantinha, odiava-o de todas as formas que se pode odiar alguém. As lágrimas escorriam pela minha cara, embora não tivesse traído o Ruben, sentia-me como se o tivesse feito, estava desesperada e entre lágrimas e pensamentos fui acordada pelo som do elevador a abrir a porta. Quando entrei deparei-me com a Sara, ela viu o meu estado e ficou logo preocupada. Perguntou-me o que tinha, mas eu não lhe respondi limitei-me a abraçá-la e senti conforto nos seus braços. Ela tirou-me dali e levou-me para o bar da Guigui. Lá estavam as duas, a Catarina e a Guigui, eu não conseguia abrir a boca, era incapaz de lhes contar o que quer que fosse, mas tive ali das maiores provas de amizade. Elas acolheram-me e tentaram acalmar-me, disseram para eu falar quando estivesse pronta... Não sei durante quanto tempo chorei, sei que estava na esplanada da praia quando fui chamada à realidade pelo telemóvel, era o Ruben e eu não tinha vontade nenhuma de atender...
- Clarinha, vais ter que fazer um esforço e falar com ele... - dizia-me a Sara.
- Eu não consigo...
- Ele vai ficar preocupado Clara, vais deixá-lo ir para o jogo assim?
Estiquei a mão e ela deu-me o telemóvel... - Estou?
- Amor?! Estamos agora a ir para o estádio, estás a ver a televisão?
- Não.
- Na rádio estão a dizer que o Parque dos Príncipes está pintado de encarnado, que os nossos adeptos estão em maioria...
- Normal amor, em Paris já sabes que é assim...
- Pois, olha depois do jogo ligo-te.
- Está bem. Boa sorte...
- Obrigada, amo-te muito...
- Eu também... - disse eu já a chorar, desligando o telemóvel de seguida.
- Clarinha calma, vais ver que o que quer que tenha acontecido se vai resolver... - disse a Catarina preocupada.
- Não, não vai. Eu tenho que acabar com isto quando ele chegar...
- O QUÊ? - perguntaram todas ao mesmo tempo.
- Isso mesmo, eu e o Ruben... Não posso continuar a enganá-lo desta forma, não é justo para ele... - disse entre soluços e lágrimas que se atropelavam a sair dos meus olhos.