segunda-feira, 28 de março de 2011

Capítulo 86 - Resistência às mudanças

(narrado pela Clara)

Acordei com o despertador do telemóvel, desliguei-o logo para não acordar o Ruben e levantei-me. Arranjei-me para ir trabalhar e antes de sair fui despedir-me dele. Ao sentir o meu beijo, ele despertou.

- Já vais amor?

- Sim. Logo sempre vais almoçar connosco?


- Não sei amor, não me quero meter no que não me diz respeito.
- Não sejas parvo, és meu namorado e tens todo o direito de conhecer o hotel.

- Tens a certeza que não tem problema?

- Já te disse que não.

- Então está bem. Queres que te vá buscar a algum lado?

- Eu levo o carro, estou em Lisboa não tem sentido vires cá buscar-me. Eu é que posso passar no centro de estágios para te ir buscar.

- Fica combinado assim.

- Até logo amor da minha vida.

- Até logo princesa. Amo-te...

- Também te amo.
Despedimos-nos e saí de casa. A minha manhã passou rapidamente, avisei o Tiago que não ia trabalhar a tarde porque os meus pais estavam cá e iria passar a tarde com eles e ele compreendeu. Quando chegou a hora do almoço saí e fui em direcção ao Caixa Futebol Campus. Estacionei no parque e fui esperar por ele. Vi alguns dos rapazes a saírem, felicitavam-me pelo reatamento do meu namoro e iam embora. Ao fim de algum tempo lá vi o
Ruben a sair acompanhado do David, do Roberto e do Javi, vinham bastante animados como era hábito naqueles 4.


- Olá meninos, essa animação toda é porquê?

- Ué, cê é que devia saber o que faz para esse cara aí. Hoje ainda não tirou esse sorriso e não parou de falar besteira...

- Não lhe ligues amor, é tudo ciúmes da minha boa disposição. Ele queria ter tido uma noite como a nossa, mas a Sarinha fez greve...
- Cala boca, cê hoje tá insuportável cara...

Aqueles dois com as sua picardias eram um máximo, conseguiam pôr toda a gente que estivesse ao lado a rir.


- Amor, conseguiste tirar a tarde?

- Sim, o Tiago disse que não tinha problema.

- 'Tou vendo que o cara de tarde vem ainda mais insuportável.

- Cala-te meu, andas um chato. Tenho que ter uma conversinha com a Sara, ela não anda a tratar de ti e depois sou eu que te aturo...

- Vá meninos parem lá com isso. Amor, vamos indo?

- Sim. Até logo pessoal.

Eles despediram-se de mim e nós saímos.

- Amor, vamos no meu.

- Mas porquê?

- Porque se decidirmos ir tomar café a algum sitio podemos levar os teus pais e no teu carro não dá.

- Ok. Onde é que está o carro?

- Ali. - disse ao apontar para um carro branco.

- Eu não acredito Ruben.

- Amorzinho não stresses. Eu tinha os dois carros na garagem e hoje apeteceu-me trazer este...

- Quem não te conheça que te compre Sr. Amorim, o que tu queres sei eu bem o que é...

- Já estás a pensar mal de mim.

- Não estou a pensar mal, só te conheço bem e percebi a tua intenção ao trazeres este carro. Digo-te já que não vai resultar...

- Levas? Eu estou cansado do treino não me apetece conduzir... - disse com aquele sorriso matreiro.
- Eu já sabia! E depois sou eu que penso mal, né?... - peguei nas chaves e entrámos no carro.

Conduzi até à Costa, quando estávamos a estacionar o carro vimos os meus pais que estavam a chegar ao hotel.

- Olá meus queridos.

- Olá mãe...

- Então Ruben, foi este o motivo da vossa chatice?

- Foi sim, Sr. Raul. Eu já lhe disse que o carro é dela, mas ela diz que não quer.

- Filha bem que tu podias ser menos teimosa, não? Andares com aquela miniatura não é nada.
- Não pai, eu adoro o meu carro. E acho que já falámos sobre isso, sabe perfeitamente que quando eu precisar de mudar de carro mudo. Mas compro um com o meu dinheiro, não preciso que ninguém me ofereça.

- Mas Clarinha, ficas tão bem dentro deste carrinho...

- Mãe, vamos entrando? Esta conversa não tem sentido nenhum...

- Vamos lá filha...

A minha mãe deu-me o braço e entrámos as duas no hotel.

(narrado pelo Ruben)

Vi a Clara a afastar-se com a mãe, mas o pai dela continuava cá fora, sem fazer tensões de ir para dentro.

- Então e aqui a máquina, porta-se bem?

- Sim, é um óptimo carro, eu ando mais com o meu, só uso este quando saio com a Clara, para ver se ela muda de ideias...
- Rapaz tens um longo caminho pela frente, aquela miúda é ainda mais teimosa que eu. Quando veio para Lisboa, para a universidade, nós dissemos que lhe dávamos o carro. Andámos a ver o Audi A3, o BMW 120d, o Mercedes a170... Vimos uma série de carro, ela viu o smart e não quis mais nenhum. Tem uma paixão por aquele carro...

- Pois, eu também já lhe tentei fazer ver que o carro não é seguro, mas ela não quer este nem por nada...

- Acredito, ela é de ideias fixas. E agora vem aí um dos meus grandes problemas...

- Se eu puder ajudar...
- Não sei se é boa ideia te meteres, depois ainda sobra para ti. Não sei como vou convencê-la a vir dirigir o hotel, quando pus a hipótese de o comprar era para ela vir para aqui, mas agora diz que não quer...

- Se me permite a intromissão, o problema da Clara é falta de confiança em si própria, ela tem medo de ser ela a tomar as decisões.

- Ela sempre foi assim, já em miúda era insegura.

- Eu acho que ela precisa que lhe mostrem que confiam nela.

- Tenho que ver a melhor maneira, para mim ela é a única que pode gerir o hotel, é a única pessoa em quem confio a 100%.

- Acredito, ela é sua filha, para além de ser uma pessoa super responsável.

- Exactamente. Bem vamos indo para dentro porque senão elas ficam furiosas com o tempo que demoramos.

Entrámos e dirigimos-nos para o restaurante. Elas já estavam sentadas na mesa onde tínhamos jantado no dia anterior.

- Demoraram... - constatou a D. Fátima.

- Sim, estivemos a ver o carro que o Ruben deu à tua filha.

- Mau, não vão os dois começar, pois não?

- Não é uma questão de começar, mas tu já viste que não aceitaste a prenda que o teu namorado te deu?
- Ó pai, por favor! Todos sabem a confusão que aquele carro deu.

- Sim filha, mas a confusão já foi resolvida, agora bem que podias ficar com ele. Sabes bem que o teu carro já está a precisar de ir para a reforma...

- Reforma, eu dou-lhe a reforma. O meu carro está óptimo, nós já falamos sobre isto e eu não quero voltar a esse assunto.

- Filha sabes bem que quando vieres gerir o hotel não podes andar com aquela amostra...

- Bem, o pai ainda não saiu duma para se meter noutra... Não acha que está a falar de coisas a mais? Eu vou mas é à casa de banho lavar as mãos que aqui não se aprende nada...

Ela saiu da mesa e a nossa conversa continuou.
- Raul, tu não sabes mesmo lidar com ela... Então queres que ela aceite as duas coisas e ainda ela não aceitou uma e já tu foste falar na outra. Vocês homens...

- Não comeces tu também Fátima, sabes tão bem quanto eu que a tua filha precisa de um carro novo e sabes também que se comprámos este hotel era para ela vir para aqui. Se eu soubesse que ela não vinha nunca o teria comprado.
- Eu acredito que ela vem para aqui, dá-lhe tempo, se bem conheço a minha filha, o problema dela é ver-se sem experiência nenhuma à frente de uma coisa que pede tanta responsabilidade. Ela sempre teve mede de não fazer as coisas bem, sempre precisou de alguém que estivesse sempre lá a apoiar. A Marta tem as coisas controladas lá em baixo não tem?

- Tem.

- Então eu acho melhor passarmos uns tempos cá em cima. Ela vem para cá, tem-te aqui todos os dias para lhe dar uma ajudinha e quando ela estiver mais à vontade, voltamos para baixo...

- Sim, também acho que é o melhor neste momento.
Continuámos a conversa até a Clara regressar. Notei-a um pouco estranha, mas deduzi que fosse da conversa que tinha acontecido minutos antes. O almoço foi bastante agradável, conversámos bastante e contámos aos pais da Clara como nos tínhamos conhecido. Depois do almoço fomos conhecer o hotel, quando fomos para a zona do escritórios o Sr. Raul resolveu insistir com a Clara.

- E aqui é o escritório da presidência. Depois podes pôr tudo a teu gosto Clara, podes mudar a decoração e tudo o que quiseres, quero é que te sintas bem no sítio onde trabalhas.


- Não sei para que me está a dizer isso pai, este é o seu escritório, o pai é que tem que o decorar ao seu gosto.
- Filha, eu estive a falar com a tua mãe e combinámos que vamos cá ficar por uns tempos, queremos mesmo que tu venhas para o hotel, mas sabemos que tens as tuas responsabilidades na empresa. Por isso mesmo, vamos esperar que organizes as tuas coisas lá na empresa para depois vires para aqui. Filha, por favor diz que vens, eu estava a contar contigo quando decidi comprar o hotel.

- Pai, eu não estou à altura daquilo que me estão a pedir, eu ainda tenho tanto para aprender...
- Filha, não digas isso. Estás à altura sim e depois qualquer coisa que precises tens o teu pai e eu, nós vamos sempre acompanhar o teu trabalho e as tuas decisões...

- Acho que não é boa ideia mãe... Eu não percebo muito disto, eu percebo aquilo que acompanhava quando estava de férias lá em baixo, tenho tanto para aprender.


Os pais dela tentavam convencê-la e apercebi-me que aos poucos ela se deixava levar.
Quando vínhamos a sair do gabinete da presidência fomos interrompidos por um rapaz, brasileiro:

- O Sr. Marques mandou-me chamar? - perguntava o rapaz.
- Sim. Queria pedir-lhe para desocupar aqui o gabinete, vamos fazer obras. Trate de arranjar um empreiteiro e depois fale aqui com a minha filha que ela vai-lhe dar instruções de como ele vai ficar.

- Então são esses os seus filhos?

- Sim, quer dizer, esta é a minha filha Clara. E este é o namorado dela, o Ruben.

- Seu rosto não me é estranho moço. - constatava ele virando-se para mim.

- Pois claro que não é, ele joga no Benfica. - respondeu-lhe o Sr. Raul.

- Pai - chamava-o à atenção a Clara - Não acha que já está a falar demais? Ele não tem nada a ver com isso... - ficámos todos espantados com a forma como a Clara tinha falado, nem parecia dela.
- Claro, cê é o Ruben Amorim. Me perdoe, qualquer intromissão menina...

- Não tem problema. - intervi.

- Menina, quando decidir o que quer fazer no gabinete por favor me avisa, para eu mandar chamar o cara que faz a obra.
- Sim, não se preocupe que eu aviso. - ela continuava a falar-lhe de forma ríspida e autoritária, o que era de todo anormal nela.

O rapaz foi embora e a D. Fátima resolveu tirar a história a limpo.

- Clara, o que é que se passou? Tu não costumas tratar assim as pessoas?
- Vocês não viram a insolência? Porque é que ele tinha que dizer que conhecia a cara do Ruben? Ele é pago é para trabalhar e não para fazer perguntas aos patrões...

- Amor, não exageres. O rapaz só fez uma pergunta, que não tem nada de mal.
- O rapaz meteu-se num assunto que não lhe dizia respeito, tal como já tinha feito antes, ao perguntar se nós éramos vossos filhos.

- Ah, agora compreendi o teu problema... Tu não gostaste foi que ele dissesse que eram irmãos...

- Nada disso mãe, não gostei da insolência, do à vontade para fazer perguntas que não lhe dizem respeito.


Aquela atitude não era mesmo dela, o que foi bastante estranho. Terminámos a visita e ela foi levar-me ao Caixa e seguiu com os pais para dar um passeio.

(narrado pela Clara)
O fim-de-semana passou e os meus pais continuaram a insistir para eu largar o trabalho na empresa, não estava à vontade com aquela situação, sabia que o Tiago contava comigo e eu tinha responsabilidades. Se por um lado tinha vontade de me lançar neste novo projecto, por outro lado, não podia deixar o Tiago na mão... Na Segunda-Feira levantei-me e arranjei-me para ir trabalhar, a manhã correu bem e durante a tarde tive uma conversa séria com o Tiago, pu-lo ao corrente da proposta dos meus pais e disse-lhe que estava tentada a aceitar, mas que nunca me passaria pela cabeça deixá-lo sem antes arranjar alguém à altura para me substituir. Ele ficou um pouco triste, no entanto compreendeu, avisou-me também que muito provavelmente o seu pai me ia fazer uma proposta para ficar na empresa. Depois do trabalho corri para a faculdade, tinha aulas e não podia faltar. No fim das aulas convidei a Inês para ir até lá a casa, no entanto quando chegámos não estava ninguém. Estranhei e liguei para o Ruben:

- Estou...

- Olá amor. Olha, onde andam vocês? Cheguei agora a casa, mas não está cá ninguém.

Longa história princesa, eles tiveram um assunto para tratar e eu vim jantar com o pessoal. Estamos no restaurante do costume, vens cá ter?

- Sim. Até já...

Até já. Beijo...

Desliguei e fui com a Inês até ao restaurante. Quando lá chegámos vi que faltava a Guigui, o Javi, a Sara, o David e a Catarina e que todos nos olhavam desconfiados.

- O que se passa? - perguntei assustada ao Ruben.

- Amor, o pessoal ainda não sabia que tu e a Inês se estavam a dar bem. Depois do stress dos meu anos ficaram todos a pensar que tu e ela nunca se iam entender.

- Ah, ok... Até pensei que tivesse acontecido alguma coisa. Como também não vi a Guigui, o resto das meninas e os rapazes, pensei que  andassem a tramar alguma. 

- Não amor, eles não estarem cá não tem nada a ver... Acho que a Guigui e a Catarina andaram a fazer das delas em Alvalade.

- Como assim Ruben? - perguntava a Inês.

O Ruben lá nos contou o que se tinha passado e fui logo telefonar para a Guigui. Não consegui falar com ela nem com a Catarina e liguei então à Sara que me disse que já estava tudo bem e que como já era tarde decidiram ir todos para casa. 

- Então amor, já puseste juízo na cabeça da Guigui? - perguntava o Ruben.

- Xiiii, juizo na cabeça daquela doida? Aquela miúda é uma força da natureza... - comentava o Alan.

- Mesmo! O Javi tem que se pôr a pau ou ela ainda passa aquela doidice toda para ele. - reforçava o Fábio.

- Não sejam assim meninos. Quer dizer, elas foram lá apoiar-vos, gritar por vocês e vocês retribuem o apoio assim?...

- Clarinha, sabes que eles estão a brincar. Mas elas bem que podiam ter visto o jogo em casa e não se terem metido naquelas confusões. - continuava o Aimar.

- Pablo, tu já conheces aquelas duas, sabes bem que elas fazem o que querem. 

- Sim amor, mas o que o Pablo quer dizer é que isto pode ser mau para o Javi. Não é bom ter a namorada na capa de jornal a dizer que foi presa porque estava metida numa confusão no estádio de Alvalade.

- Claro que não é bom, mas também vocês não sabem se foram elas que tiveram a culpa do que aconteceu. Deixem-se de especulações e comam, porque a fome afecta-vos o juízo.

Depois do jantar também nós fomos para casa, deixei a Inês em casa e depois de ir buscar as minhas coisas, fui para casa do Ruben. 

O dia seguinte passou normalmente, o pai do Tiago pediu para falar comigo e teve uma atitude bastante dignificante, ofereceu-me um contrato melhor e disse-me que compreendia a minha posição, gostava muito que eu continuasse a trabalhar lá, mas que se fosse ele também gostaria de meter as mãos em outro projecto. Pôs-me à vontade para eu tomar a decisão que fosse melhor para mim. Ao fim do dia e enquanto o Ruben estava no treino, fui ter com os meus pais ao hotel. Estivemos algum tempo na conversa e eles convidaram-me para eu jantar lá, disse-lhe que já tinha combinado com o pessoal jantarmos todos juntos e os meus pais sugeriram que jantássemos todos lá, assim eles até podiam conhecer o hotel. Liguei-lhes e eles não disseram que não, as meninas iam lá ter todas e os rapazes quando saíssem do treino faziam o mesmo. Os meus pais entretanto subiram para se arranjarem e eu fiquei no bar, estava entretida a ler um livro quando sou surpreendida com o empregado do bar que me trazia um pratinho com dois brigadeiros, uma flôr e um cartão. Eu disse-lhe que não tinha pedido nada, ao que ele me respondeu que lhe tinham pedido para me entregar, que era um mimo apenas. Não sabia o que havia de pensar, mas quem é que me teria mandado aquilo? Será que devia aceitar? Aqueles brigadeiros estavam mesmo com bom aspecto e eu adorava brigadeiros, tentei resistir mas foi difícil. Que mal teria? Agarrei num dos brigadeiros e dei-lhe uma dentada. Soube-me tão bem, resolvi ver o que dizia o cartão.

"Para lhe adoçar um pouco a boca e não ser tão azeda..."

Não estava a espera de uma coisa daquelas, olhei em frente e vi que alguém me observava e se ria. Larguei o cartão e levantei-me do sofá, eu ia desvairada, como é que ele tinha tido coragem para uma coisa daquelas e ainda por cima estava a gozar...

sábado, 19 de março de 2011

Capítulo 85 - Dias atribulados

(narrado pela Guigui)

No dia seguinte acordei com o Javi a contemplar-me.
 
- Bom dia jeitoso! Já estás acordado há muito tempo?
 
- Não, acordei há bocado e fiquei aqui a apreciar-te...
 
- Mas eu agora virei obra de arte, foi?
 
- Claro! - aproximou-se de mim e começou a beijar-me suavemente o rosto, descendo para o meu pescoço e ombros - A mais bela e preciosa do mundo...
 
- Ui que ele hoje está tão meloso... Que tal levantarmo-nos, não? Daqui a pouco tens treino amor...
 
Ele assentiu e caminhámos juntos até à casa-de-banho. Entrámos juntos no chuveiro e tomámos banho entre muitos beijos e carícias. Sentia-me plenamente feliz ao estar novamente junto dele. Quando terminámos o banho vestimo-nos, o Javi tomou o pequeno-almoço e saímos juntos. Como o meu carro tinha ficado com a Maria acabei por ir de boleia com ele até ao bar. Assim que me deixou lá seguiu para o Centro de Estágio. Como ainda era cedo e quer o Ico quer a Maria ainda não tinham chegado, aproveitei para ir preparando as coisas, uma vez que ultimamente andava bastante ausente do bar. Eram quase 10h quando a Maria chegou.
 
- Tu, por aqui? - perguntou espantada por me ver ali.
 
- Sim minha linda. Tudo bem?
 
- Tudo e contigo? Que carinha de parva é essa com que estás?
 
- Mas já começas? Não é carinha nenhuma...
 
- Ui, deve ser isso... Das duas uma, ou aquilo antes de ontem à noite deu molho ou já fizeste as pazes com o espanhol... - não consegui evitar e um sorriso apaixonado desenhou-se no meu rosto - Já 'tá tudo bem? Bolas, finalmente... Aquela tua bipolaridade já não dava com nada.
 
- Até parece que eu sou difícil de aturar...
 
- Nem vou comentar essa... Mas olha lá, o que é que estás aqui a fazer afinal?
 
Preparava-me para lhe responder quando vejo o Ico a entrar.
 
- Por aqui Guigui?
 
- Olha-me outro... Eu não sou também dona do bar?
 
- És és, só que andas tão desaparecida que até estranho estares por aqui a estas horas...
 
- Olhem, vão-se lixar, sim? Tenho mais que fazer do que aturar-vos...
 
Entrei na cozinha e comecei a preparar o pequeno-almoço para os três. Quando terminei levei-o para fora e chamei-os. Apesar de já saberem que eu e o Javi tínhamos feito as pazes, estavam a estranhar a minha boa disposição. Sentámo-nos todos a tomar o pequeno-almoço e a conversar animadamente. No final levantei a mesa enquanto o Ico se preparava para as aulas que ia dar e a Maria atendia os primeiros clientes. A manhã não passou muito daquilo, como era época de exames havia já vários estudantes que frequentavam o bar para estudar enquanto apanhavam o pouco sol que se fazia sentir e que dava pelo menos para recordar um pouco o Verão. Eram já horas de almoço quando vi um grupinho entrar pelo bar. Sorri-lhes e aproximei-me.
 
- Olha as minhas jeitosas. Então, tudo bem? - aproximei-me e cumprimentei-as. Vinha a Catarina, Marta e Belise, Coki, Eliana, Magali, Sara, Romi e Inês. QUando me aproximei da Inês para a cumprimentar, inexplicavelmente, vi-lhe um sorriso sincero no rosto. Estranhei aquela atitude, no entanto cumprimentei-a - Então que vos traz por cá? Já almoçaram?
 
- Não, e era mesmo isso que vínhamos fazer. Os rapazes desafiaram-nos para virmos almoçar com eles. Ao que parece há um certo rapazinho que está cheio de saudades da namorada...
 
- Sarinha, deixa de ser tolinha, pode ser?
 
- Linda, sabes bem que o que a Sara está a dizer é verdade...
 
- Belise, meu amor, anda cá que a tua mãe hoje também está tolinha. - disse aproximando-me da Marta e esticando os braços para a Belise que estava ao seu colo - Eu também estou  a morrer de saudades dele, acredita. - segredei ao ouvido da Marta assim que a Belise saltou para o meu colo - Vamos lá arranjar mesa para todos então.
 
Comecei a arranjar mesa com a ajuda delas quando senti alguém a abraçar-me e a enterrar o rosto no meu pescoço.
 
- Acho que o meu namorado não ía gostar nada de ver um jeitoso todo cheiroso assim a abraçar-se a mim...
 
- Pois, se calhar não ía gostar mesmo nada... Mas se calhar é melhor aproveitarmos que ele não está aqui, não concordas? - disse virando-me de frente para ele - Como correu a manhã princesa?
 
- Lenta, lenta... Estava a ver que nunca mais o tempo passava para te ver... Podias ter dito que vinham almoçar, não?
 
- Só há bocado é que falei com eles...
 
- Estás perdoado então.
 
- Cês vão ficar aí se agarrando o resto do dia ou vamos almoçar?
 
- Chiça, mas tu só pensas mesmo em comer? Deixa-me aproveitar o facto do meu namorado estar aqui, sim?
 
- Ó puto, deixa-os matar as saudades...
 
- Ó grandalhão, 'tás muito engraçado, não achas? Vocês começam-se todos a unir e ficam insuportáveis... O que me safa são mesmo os argentinos, são muito mais calminhos.
 
- Diz-lhes isso e depois não te admires do que eles te façam... - a Inês falou pela primeira vez e sorriu-me.
 
Sorri-lhe de volta e fui até à cozinha preparar qualquer coisa para o almoço. A Catarina e a Sara seguiram-me e, mal entrámos, tentei satisfazer a minha curiosidade.
 
- Sarinha, conta-me cá uma coisa... Que simpatia súbita é esta da Inês?
 
- Eu cá não sei, mas bem que a Clarinha já tinha falado que ela a tinha tentado conhecer e que pareceu muito simpática. Não sei se será razão para desconfiar ou se ela terá mesmo mudado de opinião em relação a nós.
 
- Pois, só espero que seja a segunda hipótese, não estou com grande vontade de me meter em mais stresses...
 
Lá conseguimos arranjar umas saladas e umas coisas mais leves para comer e seguimos as três para junto deles com a comida. O almoço foi animado,sempre entre muita conversa e brincadeira. Quando o almoço terminou, despedi-me deles e vi-os irem embora. A tarde no bar correu bem, o meu irmão e a Carol apareceram por lá já ao fim da tarde.

- Boa tarde família!

- Oi maninha!

- Ola linda! Tudo bem?

- Tudo bem meus amores... E com vocês e o meu sobrinho?

- Sobrinho não, sobrinha... - disse a Carol mostrando um sorriso.

- Sobrinha?! É uma menina que aí vem?!

- Parece que sim. Viemos agora mesmo da consulta.

- Que bom! Vou ser uma tia babada com a minha princesa linda!

- Guigui, não comeces já. Acalma-te, pode ser? Ainda falta muito tempo para ela nascer.

- Quero lá saber! Não falta assim tanto... Então e já escolheram o nome? Já podem começar a pintar o quarto, mas nada de cor-de-rosa, ok? Pintem de amarelo clarinho e laranja, fica muito mais giro. - ouvi uma gargalhada e olhei para o meu irmão que se ria das minhas figuras.

- Guigui, vá lá, acalma-te. Até parece que és tu que vais ser mãe.

- Deixa-te de disparates Santiago.

Ficámos os três a conversar animadamente até que chegou a hora de fechar o bar. Eles despediram-se de mim e foram embora. Assim que terminei de fechar o bar com o Ico e a Maria saí e dirigi-me a casa. Ao entrar dei com o Javi deitado no sofá a dormir. Fui até junto dele e dei-lhe um leve beijo, dirigindo-me de seguida à cozinha para preparar o nosso jantar. Enquanto o jantar estava no forno, aproveitei e fui até ao quarto trocar de roupa. Quando regressei à sala agachei-me junto ao sofá e, calmamente, comecei a acordar o Javi, dando-lhe leves beijos no rosto e pescoço.

- Amor... - ele começava a mexer-se mas ainda de olhos fechados - Bebé, o jantar está quase pronto, acorda...

- Já chegaste princesa? - perguntou ao abrir lentamente os olhos.

- Não, sou uma aparição... - dei-lhe um leve beijo nos lábios e sorri-lhe - Levanta-te dorminhoco, vou pôr o jantar na mesa.

Levantei-me e dirigi-me à cozinha. Pus a mesa e o Javi entretanto veio-me ajudar. Coloquei a comida na mesa, sentámo-nos e enquanto nos servíamos ele começou a falar.

- Princesa, posso-te fazer uma pergunta?

- Claro amor. Passa-se alguma coisa?

- É só uma coisa que eu gostava de saber... Ontem chegaste ao treino com o Alan...

- Sim...?

- Porque é que estavas com ele?

- Porque fiquei em casa dele. - ele olhava-me intrigado - Mas não te ponhas para aí com ideias que não se passou nada.

- Eu sei guapa, mas não gostei de te ver a chegar com ele, não vou esconder isso.

- Eu sei que não amor, também não ía gostar de te ver com uma rapariga se estivesse no teu lugar, por isso mesmo é que te pedi desculpa... - estiquei o braço até alcançar a sua mão sobre a mesa e prossegui - No final do jogo a Marta convidou-me para jantar com eles, eu sabia que era quase certo que o Roberto te fizesse o mesmo convite e, como estava chateada, não aceitei e vim directa para casa. Ia ficar em casa, mas eles chegaram e o David veio-me encher a cabeça com cenas, eu não estava para ali virada e acabei por combinar com a Maria de irmos a uma festa que ia haver na minha antiga faculdade, assim sempre desanuviava. Fui buscar a Maria e fomos para a festa, ao fim de estarmos lá já há algum tempo, vi o Alan lá, estava com o Caio e uns amigos, e acabámos por nos juntar a eles. Eu já tinha  bebido um pouco demais e como é lógico, queria era festa. A Maria acabou por ir para casa cedo e levou o meu carro, visto que eu não ía estar em condições de conduzir. Eu fiquei com o Alan e o Caio e a certa altura eles quiseram também ir embora. Eu ía apanhar um táxi, mas o Alan disse que eu podia ficar em casa dele, que não havia necessidade de ir sozinha de táxi para Lisboa, portanto acabei por ficar em casa dele.

- E porque é que no dia seguinte não ficaste no bar? Porque é que foste com ele para o treino?

- Olha, nem sei, acho que ainda estava com demasiada energia. Quando cheguei a casa dele deitei-me, mas não conseguia dormir. Acabei por me levantar quando o sol começou a nascer e fui nadar. Saí da piscina quando ele se levantou e, depois de tomar um banho e tomar o pequeno-almoço, ele acabou por me convidar para ir ver o treino. Acabei por aceitar porque além de precisar de te ver, também te queria fazer ciúmes. Mas assim que lá cheguei e te vi, arrependi-me de ter ido com ele. Desculpa amor, eu amo-te, fui uma parva.

- Já passou princesa, esquece isso. Já estamos bem e é isso que interessa.

Sorri-lhe e jantámos entre muita brincadeira. Quando terminámos de jantar e depois de arrumarmos a cozinha, fomos para a sala ver um filme, bem abraçados e fomos deitar-nos de seguida. O fim-de-semana passou a correr, entre o trabalho no bar e os treinos do Javi, não estivemos muito tempo juntos. Como os treinos foram de manhã, aproveitei a boleia dele e ainda fui surfar de manhã, antes de abrir o bar. No Domingo saí mais cedo do bar e fui para casa ter com ele. Como ele ía na Segunda-Feira de manhã para Estágio, aproveitámos a noite para estarmos juntos. Acordámos no dia seguinte cedo e, depois de tomarmos banho e nos arranjarmos, fui levá-lo ao estádio para seguirem depois para o hotel. Como o bar ía estar fechado, combinei com as meninas de irmos fazer qualquer coisa durante o dia. A Clara e a Catarina tinham que ir trabalhar e a Sara só estava livre à tarde, portanto acabei por ir passear para a Baixa com a Romi, Marta, Magali, Coki e Eli. Fizemos umas compras e almoçámos por um dos Restaurantes de lá. À tarde ainda aproveitámos para ir ao cabeleireiro e depois seguimos cada qual para sua casa. Eu tinha combinado com a Maria e a Catarina de ir ver o jogo com a Alvalade, portanto, assim que cheguei a casa, vesti uma roupa mais simples, peguei no meu cachecol, na camisola que o Javi me tinha dado no primeiro jogo dele que tinha ido ver, no cartaz que já tinha preparado e saí em direcção à minha antiga casa. Estacionei o carro e subi. A Catarina já estava pronta, assim como a Maria que já lá estava. Saímos as três juntas e apanhámos o metro até Alvalade. Assim que saímos do metro e entrámos no estádio pude comprovar aquilo que já previa.

- Pronto, os animaizinhos foram soltos da jaula já estão a fazer porcaria.

- Guigui, não comeces! Já sabes como são estes jogos, deixa-te mas é estar calada.

- Maria, a minha prima tem razão, estes gajos são uns animais mesmo, olha para isto. Ainda nem o jogo começou e já estão a fazer merda.

- Quem me mandou a mim vir para aqui com vocês?! Chiça, também sou estúpida eu...

Por azar os nossos lugares eram bem perto de umas das claques do Sporting, o que não era muito bom. Eles subiram ao campo para o aquecimento e os nossos jogadores fizeram o aquecimento daquele lado do campo. Assim que o vi entrar sorri e estiquei, com a ajuda da Catarina, o cartaz que tinha preparado. O Javi não sabia que eu ía ver o jogo, e o facto de ver um cartaz a dizer "Javi, estou contigo hoje e sempre" chamou-o à atenção. Assim que terminou de ler o cartaz e procurou quem o teria trazido, os seus olhos encontraram os meus e aquele sorriso que tão bem o caracterizava surgiu no seu rosto. Os seus olhos brilhavam e eu sorri-lhe de volta enquanto beijava a nossa tatuagem. Ele repetiu o meu gesto e voltou ao aquecimento. Pude ver que aproximou-se do Pablo e mostrou-lhe que a Catarina também lá estava. O aquecimento prosseguiu e pouco depois eles voltaram a entrar nos balneários, senti o meu telemóvel tocar pouco depois. Tirei-o do bolso e vi que era uma mensagem.

"Tu és louca! Tem cuidado princesa, sabes melhor que eu que estes jogos não costumam ser calmos. Amo-te! Até logo"

Sorri com aquela mensagem e respondi-lhe.

"Sou louca porque te amo? Então deixa-me ser louca eternamente. Estou aqui a torcer por ti. Amo-te meu essencial. Boa sorte. Beijão"

Eu sabia que ele tinha razão, aqueles jogos costumavam sempre terminar em confusão, mas eu tinha que o apoiar sendo o jogo tão perto. Voltei a guardar o telemóvel no bolso e não demorou muito a que eles voltassem a entrar em campo. O árbitro deu o apito inicial e a bola começou a rolar. Nós dominámos a maior parte do jogo, apesar de se notar na equipa do Sporting um desespero enorme em manter a bola do lado deles. Nas bancadas fez-se notar esse desespero. Os petardos eram muitos e começavam a ver-se cadeiras a serem arrancadas e a voarem em direcção ao campo. Ao intervalo já se tinha sentido a carga policial na zona das claques, já tinham sido muitos os adeptos a serem expulsos do estádio e alguns já tinham sido mesmo levados pela polícia. Começou a segunda parte e o ambiente dentro e fora de campo era o mesmo. O Salvio acabou por marcar o segundo golo que vincava a vitória do Benfica, fazendo de seguida uma comemoração que no mínimo era estranho. Consegui ainda tirar uma foto que enviei à Magali acompanhada da pergunta que me intrigava.

"Qual o significado?"

Obtive a resposta pouco depois.

"Ahah! É por causa dos meus 'lindos' olhos :p"

O jogo terminou com uma vitória do Benfica por 2 - 0. O Javi sorriu-me mesmo antes de entrar nos balneários. Estávamos já a subir as escadas quando fomos interceptadas por um grupo de Sportinguistas que se colocou à nossa frente. Um deles olhou para a Maria e, vendo que era a única que trazia um cachecol do Sporting, falou.

- Devias ensinar as tuas amigas que neste estádio elas não fazem a festa sem sofrer as consequências.

- Desculpa lá, importas-te de nos deixar passar? - falou instintivamente a Catarina.

- 'Tás com muita pressa, é? Não tiveste tanta pressa a comemorar os golos. Não vieram para a festa? Agora ficam até ao fim.

- Ouçam lá, mas eu conheço-vos de algum lado? Saíam mas é da frente, estamos num país livre, larguem esse ódio estúpido e essa inveja de não serem como nós. - vi um ódio tremendo aparecer na cara deles e prossegui - Podemos ir embora ou ainda vão ficar aí a empatar durante muito tempo?

- Inveja de sermos como vocês? Vocês são uma merda! - começou um deles a gritar aproximando-se cada vez mais de nós.

- Somos uma merda? E vocês são uns reles lagartos que rastejam na merda! Agora sai-me da frente que já me estás a irritar! - pronunciei estas palavras já a gritar e vi que o grupo de quatro pessoas que estava à nossa frente passou a uma multidão. Os benfiquistas que estavam por perto juntaram-se a nós e não demorou a que a confusão se instalasse. Entre empurrões, socos e pontapés senti alguém a começar a separar as pessoas.

- Estes jogos é sempre a mesma merda, nem por serem mulheres têm mais juízo? Parece que gostam de levar...

- Desculpe lá, mas conseguiu ver o que se passou?

- Mais respeito, sim? Não lhe chega já a acusação que vai levar de distúrbios ainda quer uma de desrespeito à autoridade?

- Guigui, cala a boca. Olha a confusão em que já nos metemos... Não piores a situação.

A Maria odiava confusões, já eu e a Catarina estávamos habituadas a estas coisas. Acabámos por ser levadas para a esquadra, assim como os restantes adeptos das duas equipas que se tinham envolvido na confusão.


(narrado pelo Javi)

Assim que entrei em campo para o aquecimento um cartaz chamou-me à atenção, não só pelo que dizia mas também pelo local onde estava. Assim que a vi uma felicidade tremenda apoderou-se de mim, assim como a preocupação. Ela sabia perfeitamente que nestes jogos era um perigo ficar nas bancadas, ainda para mais perto das claques. Vi a Catarina e imediatamente avisei o Pablo da sua presença lá. Quando regressámos ao balneário não me livrei das bocas do costume.

- Babaca, que sorriso parvo é esse?

- Puto, não comeces. Deixa-me sossegado.

- Cê 'tá brincando... Fala logo cara! Esse sorriso mete Guigui, concerteza!

- Claro que sim. - soltei uma gargalhada - Ela veio ver o jogo...

- Pô, mas ela é louca? Fala p'rá mim que ela não trouxe a Sara... Esse jogo vai ser de loucos.

- Não, ela não trouxe a Sara. Está só ela, a Catarina e a Maria. Não comeces já a azarar, estou com o mesmo medo, sei bem como são estes jogos, mas acredito que vá correr tudo bem.

A conversa ficou por ali.Despimos o fato-de-treino e entrámos em campo. Foi um jogo intenso, mas acabámos por vencer. No final do jogo, ao sair do campo, sorri-lhe. Felizmente tinha corrido tudo bem, ela estava bem. Entrei no balneário, tomei um duche e vesti o fato de treino. Seguimos o Mister e o Rui até ao autocarro e rumámos até ao Estádio da Luz. Quando estávamos a sair do autocarro ouvi o meu telemóvel a tocar. Atendi sem ver sequer de quem era a chamada.

- 'Tou?

- Amor? Preciso de um favor...

- O que é que foi? - notei algum nervosismo nela - Passou-se alguma coisa?

- Tivemos um imprevisto. Eu sei que disse que te ía buscar, mas não vou conseguir e preciso que me venhas buscar a mim...

- Onde é que estás? Margarida, o que é que se passou?

- Javi, acalma-te. Estou na esquadra de Benfica, sabes onde fica?

- Na esquadra? Margarida, o que é que se passa? Estás bem?

- Amor, calma, não foi nada de especial. Houve um stress no final do jogo mas está tudo bem. Só preciso que me venhas cá buscar e tragas a mina carteira com os documentos todos que está em minha casa. Podes fazer isso?

- Sim, vou já. O David e o Ruben ainda não saíram, vou apanhar boleia com um deles. Até já.

- Até já. Obrigado. Amo-te.

- Eu também. - desliguei e chamei o David - David! Preciso de um favor teu.

- Fala aí cara...

- Vais para casa delas agora?

- Sim, combinei com a Sara de pegar ela para ficar lá em casa comigo, porquê?

- Preciso que me dês boleia...

- Ué, a Guigui não vinha pegar você?

- Longa história puto, conto-te pelo caminho. - entrámos para o carro dele e seguimos viagem enquanto eu lhe comecei a contar a história. Quando chegámos a casa delas subimos para que eu fosse buscar o que a Guigui me tinha pedido - Oi Sara, tudo bem? - entrei enquanto a cumprimentava.

- Sim, e contigo? Oi amor.

- Tudo bem. Sabes onde é que a Guigui deixou a mala dela antes de ir para Alvalade?

- Acho que está no quarto, mas porquê? Onde é que ela anda?

- Cê não vai acreditar amor...

- Não vou acreditar em quê?

- A Guigui 'tá na esquadra. Parece que houve confusão no final do jogo e ela foi levada pela polícia...

- 'Tás a gozar... - olhou para o David e de seguida para mim - Isso é a sério?

- Cê acha que eu ia brincar com uma coisa dessas?

- Então e agora?

- Agora eu vou ter que ir à esquadra buscá-las e levar os documentos todos. A mala tá no quarto, não é?

- Sim. Javi, é melhor eu ir contigo. A ti toda a gente te conhece, eu vou contigo e vou eu levar as coisas há esquadra.

- Se a Sarinha vai eu também vou, né?

Fui buscar a mala da Guigui, peguei nas chaves do carro dela e saímos. Eles foram no carro do David, visto que não íamos caber todos no mesmo. Assim que lá chegámos estacionei o carro num sítio mais escondido e fui ter com o David enquanto a Sara ía lá dentro. Estivemos mais de meia hora até que elas finalmente saíram.

- Margarida, 'tás bem? O que é que se passou afinal? Fizeram-te mal?

- Amor, calma, não foi nada de especial.

- Mas o que é que se passou afinal? - ela explicou-me o que se tinha passado enquanto soltava leves gargalhadas juntamente com a Catarina - Tu não existes mesmo...

- O que é que tu queres que eu faça? Que chore? Já me chega ter que levar com isto, pelo menos deixa-me ver a parte engraçada das coisas.

- Quero ver se vais achar a mesma piada quando o pessoal souber.

- Vá, não resmungues tanto e vamos é embora que preciso de dormir. - chegou perto de mim e deu-me um leve beijo. Despediu-se do resto do pessoal e seguimos para casa. Quando lá chegámos a Maria acabou por levar o carro dela para a Costa.


(narrado pela Guigui)

Assim que entrámos no prédio comecei a provocar o Javi. Beijei-o intensamente enquanto as minhas mãos passeavam desde a sua cintura até à nuca. Ele tentava demonstrar um ar indiferente, o que me estimulou ainda mais para continuar a provocá-lo. Assim que se virou para a porta de forma a abri-la, abracei-o por trás, colocando as minhas mãos por dentro da sua camisola. Enquanto uma se mantinha na sua barriga, deixei que a outra procurasse a parte mais sensível do seu corpo. Assim que o toquei senti o seu nervosismo e soltei uma pequena gargalhada, quase inaudível. Ele abriu rapidamente a porta e voltou-se de frente para mim, obrigando-me também a entrar enquanto fechava a porta com alguma pressa. As suas mãos desceram até às minhas ancas puxando-me mais para si, o que me levou a saltar para o seu colo. Desapertei o seu casaco e despi-o, as suas mãos entravam em contacto com a minha pele, obrigando-me a despir a camisola que tinha vestida. Beijámo-nos fugazmente, demonstrando toda a excitação e desejo que se apoderavam de nós. Amámo-nos ali, naquela sala que já tão bem caracterizava o nosso amor. No final o Javi pegou-me ao colo e entre beijos fomos para o quarto onde adormecemos abraçados. Acordei na manhã seguinte com o Javi a beijar suavemente o meu corpo. Sorri com aquele sorriso e puxei-o para mim. Ficámos ainda algum tempo na cama a namorar e quando nos levantámos fomos tomar um duche. Enquanto nos arranjávamos ouvi o meu telemóvel a tocar. Assim que o alcancei vi que era uma MMS e abri, ficando em choque com o que via.

- Porra, não acredito nisto!

- O que foi princesa? - perguntou enquanto lhe passava o telemóvel para as mãos - Boa...

Era uma MMS da Sara com uma foto da capa de um dos jornais diários, onde aparecia uma foto minha e do Javi na noite anterior junto à esquadra e dizia por baixo "Namorada de Javi Garcia é detida após distúrbios no Derby".

- Estes gajos são impossíveis! Que paciência que é preciso ter para isto...

- Guapa, já sabias que era provável vir-se a saber disto. Agora espero é que isto fique por aqui...

- Já sabes qual é a probabilidade disso acontecer, não sabes? Bem, tenho é que ir embora que tenho que ir para o bar.

- Margarida, nem penses que vais para o bar... Foste capa de jornal, acho que é melhor tirares uns dias e deixares a poeira assentar, se não já sabes que é certo que os jornalistas te vão descobrir...

- Amor, eu não posso esconder-me, não é?

- Não é isso que te estou a dizer, mas pelo menos para já não vás trabalhar, pode ser?

- Eu tenho responsabilidades Javi...

- Eu sei princesa, mas só hoje, pode ser?

- Não posso Javi, o Ico ia-se passar...

- Ele vai perceber. Eu ligo-lhe e explico.

- Javi, poupa-me! Não és meu pai, eu sei muito bem arcar com as consequências dos meus actos. Vá, eu vou é trabalhar e não se fala mais nisso. Posso levar o teu carro?

- Margarida...

- Nem Margarida nem meia Margarida. Acabou-se a conversa. Se me quiserem vir chatear a cabeça, que venham. Sou tua namorada, mas acima de tudo sou uma pessoa. Além disso não fiz nada de mal. Até logo. Vai para o treino com o Roberto ou com o Salvio e depois passa no bar para trazeres o carro, pode ser?

- Vale a pena eu insistir?

- Não. Amo-te, até logo. - aproximei-me dele e beijei-o. Quando me ia afastar ele puxou-me com força novamente para si.

- Amo-te. Se acontecer alguma coisa liga-me logo, ok? - acenei-lhe afirmativamente - Bom trabalho. Até logo.

Despediu-se de mim com um beijo e eu dirigi-me à garagem. Entrei no carro e arranquei. Assim que a porta da garagem abriu, saí e não queria acreditar no que estava a ver.

terça-feira, 15 de março de 2011

Capítulo 84 - Visita dos pais

(narrado pela Clara)


A noite custou imenso a passar e o dia seguinte não foi muito diferente da noite. Enquanto almoçava recebi um telefonema dos meus pais.

- Estou?

- Olá filhota.

- Olá pai. Então, já tiveram a reunião?

- Sim.

- E então? Correu tudo bem?

- Sim, vamos assinar o contrato agora à tarde.

- Que bom, ainda bem!

- Filha, logo estamos à tua espera para jantar lá no hotel.

- Está bem.

- Leva o Ruben, quero conhecer melhor o rapaz.

- Ó pai não comece, não vai andar com as tretas de pai protector, pois não?

- Não filha, só quero passar algum tempo com vocês.

- Está bem, eu vou ver se ele pode, mas não prometo nada.

- Ok, então até logo. A tua mãe manda-te beijinhos.

- Para ela também, até logo.

Desliguei e retomei o meu almoço, no fim deste, voltei para a empresa. Durante a tarde liguei ao Ruben, pedi para falarmos e disse que os meus pais nos tinham convidado para jantar com eles. Ele disse que passava lá em casa para falarmos e que o jantar dependia da nossa conversa, sentia-o um pouco distante, era evidente que estava magoado e eu tinha mesmo que me desculpar. Era verdade que detestava falar da minha vida, ainda para mais no que dizia respeito às posses dos meus pais. Embora fosse verdade que ele não tinha nada a ver com isso também era verdade que nós já tínhamos uma relação bastante séria e eu já devia ter contado.
A tarde passou de forma bastante lenta, mas quando chegou à minha hora saí. Quando estava a sair do carro para entrar em casa, vi o carro do Ruben a chegar, esperei que ele estacionasse para entrarmos juntos. 

- Olá - disse ao dirigir-me a ele para o cumprimentar.

- Oi - respondeu-me de forma seca dirigindo-se para a porta, sem nunca se chegar a mim.

Entrámos no prédio e de seguida no elevador, ele não olhava para mim e eu estava sem coragem de falar com ele. Quando chegámos ao meu andar, entrámos em casa e não estava ninguém.

- Nem me vais dar um beijo? - perguntei-lhe.

Ele veio na minha direcção e deu-me um leve beijo, ou melhor, juntou os seus lábios aos meus num movimento rápido sem me dar tempo para retribuir o beijo.

- Já nem um beijo em condições me dás?

- Clara, pára com isso. O que é que tens para falar comigo?

- Fogo, também podias facilitar um bocadinho, não?

- Estás a gozar comigo?! Vou facilitar tal como tu facilitaste quando foi ao contrário? Lembras-te como discutiste comigo? Como não me deste qualquer hipotese e terminaste tudo?

- Eu sei, desculpa... Vamos falar, sim? - fiz uma pequena pausa, respirei fundo e iniciei o meu pedido de desculpas - Desculpa, eu sei que já devia ter contado, mas acredita que não foi mesmo por mal. Eu nunca quis saber das possibilidades dos meus pais, aquilo que eles têm ou não nunca me interessou. 

- Magoaste-me, não confiaste em mim...

- Ruben, juro que não foi uma questão de confiança. É como te digo, nunca me interessou, nem nunca me serviu de nada as posses dos meus pais, eu sei o que eles lutaram para ter o que têm, nós tivemos que nos mudar para o Algarve. Tive que largar todos os meus amigos, a minha escola, tudo e na altura foi por uma possibilidade, uma experiência que deu certo e agora eles têm tudo o que fizeram por merecer, mas também podia dar errado... Foi uma indefinição, foi péssimo para eles, passaram mesmo por muito e ainda tiveram que levar comigo e com a minha irmã, que não queríamos sair de Lisboa por nada. Juro-te que se não disse nada, não foi por não confiar em ti, mas sim porque aquilo que eles têm para mim nunca importou... Por favor, acredita em mim... 

- Ok, eu acredito... Mas será que há mais alguma coisa que eu tenho que saber? Não vou ter mais surpresas Clara?

Respirei fundo, havia uma coisa sim, um assunto delicado e que eu não sabia como contar.

- Sim, mais uma coisa, mas por favor acredita em cada palavra que sair da minha boca. 

- O que é que se passa Clara?

- Promete que me deixas falar até ao fim e que vais acreditar em mim.

- Fala...

- Promete!

- Diz o que é?

- Promete Ruben!

- Eu prometo, agora diz de uma vez...

- Tem a ver com o Miguel.

- O Miguel? O gajo do Algarve que te beijou?

- Sim...

- Foste para a cama com ele foi isso?

- Deixas-me contar ou vais continuar com suposições?

- Conta...

- Ok, então é assim... O Miguel foi das primeiras pessoas que eu conheci quando cheguei ao Algarve, era aquele amigo que esteve sempre comigo. Que me apresentou aos seus amigos, que me ajudou nos primeiros dias de escola, aquele amigo que estava sempre lá quando eu precisava. Sempre fomos muito cúmplices, sempre passámos muito tempo juntos e éramos o apoio um do outro. O tempo foi passando e a nossa amizade crescendo, até que começámos a ter outros pensamentos na nossa cabeça. Novas experiências, novos pensamentos, ou seja, chegámos à idade da parvoíce, aquela idade que fazemos coisas sem pensar e sem nexo nenhum.

- Vocês...? - perguntou-me.

- Sim, nós envolvêmo-nos. Foi a nossa primeira vez, foi a pior decisão que tomei na vida. Não só porque não foi o que esperava, mas também porque foi com a pessoa errada, nós misturámos as coisas, apressámos algo que tem um momento certo de acontecer. 

- Mas foi só dessa vez ou já teve continuação...

- Foi só dessa vez, se estás a supor que quando houve o beijo, houve também algo mais estás enganado. Foi mesmo só o beijo e espero que acredites em mim, porque se te contei isto é porque não quero mais fantasmas entre nós. Ultimamente tivemos algumas coisas que nos afastaram, mas da minha parte não tenho mais revelações, sou um livro aberto... Já sabes tudo da minha vida e o que ainda tiveres dúvidas pergunta que eu respondo...

- Chega de segredos Clara?

- Sim...

- Não sentes nada por esse Miguel?

- Já te respondi a isso, claro que não sinto, o meu coração é teu... Sabes que não digo isto da boca para fora, se o digo é porque o sinto...

Vi-o finalmente aproximar-se de mim e já trazia aquele sorriso no rosto, pousou a sua mão na minha cara e puxou-me para ele, colou os seus lábios aos meus e beijou-me. Um beijo bem diferente do que me tinha dado anteriormente, um beijo carregado de amor, confiança e entrega. Finalmente tínhamos-nos reconciliado e estávamos a comemorar da melhor forma, até ao momento eram apenas beijos, mas depressa passou a algo mais, a respiração ficou ofegante e as mãos passeavam pelo corpo um do outro. O ambiente estava bastante entusiasmante até que fomos interrompidos pelo som do telemóvel, era o meu que estava a tocar:

- Estou?

- Filha, não te esqueceste do jantar pois não?

- Não mãe, esteja descansada. Vou só mudar de roupa e vamos já.

- Trazes o Ruben, não trazes?

- Sim mãe, ele vai comigo.

- Então até já filha, venham com cuidado.

- Não se preocupe, até já.

Desliguei o telemovel e o Ruben agarrou-me novamente.

- Amor pára, tenho que me ir despachar, os meus pais já estão à nossa espera.

- Clarinha?

- Diz...

- Tenho mesmo que ir?

- Não queres ir jantar com os meus pais?

- Não é isso Clara, só não sei se é a altura certa...

- Ruben?! Estás a gozar comigo?

- Amor, como é que os teus pais reagiram quando acabámos? De certeza que eles não gostaram que eu te fizesse sofrer...

- Inseguranças Ruben? Se queres mesmo saber, eles ficaram tristes por nós acabarmos sim, mas acredita que eles te defenderam. Compreenderam a tua atitude, não me vais dizer que agora estás com medo deles...

- Já estás a gozar comigo...

- Eu, a gozar contigo? Achas?! - disse eu com ar de gozo.

- Não acho nada, tenho mesmo a certeza... Clarinha, tens mesmo a certeza?

- Tenho, não te preocupes, está tudo tranquilo. Eles viram a minha felicidade no Natal quando estávamos bem e a minha tristeza quando os fui visitar desta última vez. Não acredito que eles se oponham à nossa relação... Ainda para mais é impossível não gostar de ti... - confidenciei-lhe ao aproximar-me dele, ele percebeu a minha directa e entrou na brincadeira.

- Ai sim? Então é melhor teres cuidado, com tanta a gente a gostar de mim, o melhor mesmo é não desgrudares.

- Pois, também acho melhor. Se não me cuido, ainda me roubam o namorado.

- Pois, sendo assim, para não correres esse risco, que tal pores no dedo o anel de noivado e marcarmos a data do casamento...?

- Eiiii... Tem lá calminha, sim? Temos tempo...

- Sempre a fugir Clara...

- Não estou a fugir, só acho que temos tempo para tudo. Embora isso não invalide que eu tenha que deixar de cuidar do meu homem, não marcar a data, não quer dizer que te deixe andar à solta. Nem penses que te livras de mim...

- Nem eu quero, não sei o que seria de mim sem ti. Bem dita lesão que me fez falhar aquele jogo na Madeira, se eu tivesse ido nunca na vida me tinha cruzado contigo.

- Cala-te com isso, com lesões não se brinca Ruben. Livra-te de voltares a dizer isso... - disse eu irritada.

- Pronto, calma...

- Calma nada, se te oiço dizer isso outra vez nem sei o que te faço...

- Amor, calma, foi na brincadeira, não precisas de ficar assim. - disse-me preocupado.

- Preciso sim, isso não se diz nem na brincadeira. Eu sei bem como tu sofres por não jogar e está-me a irritar tu dizeres isso... 

Ele aproximou-se de mim e voltou a abraçar-me - Não pensei no que disse, desculpa.

- Mas tens que começar a pensar, não podes dizer todas as baboseiras que vêm a essa cabeça. Enquanto pensas naquilo que disseste eu vou-me vestir, temos que sair...

Ele riu-se e eu subi as escadas para me ir vestir. Tomei um duche rápido e vesti um vestido cinzento com decote em bico e meia manga, na cintura tinha uma faixa que fazia um laço do lado esquerdo, tinha vestido uns collants e sapatos pretos. Sequei o cabelo apenas com o secador e penteei-o normalmente. Peguei na mala e saí do quarto.



- Wow! - disse ele ao ver-me descer as escadas - Parece que não és só tu que tens que ter cuidado comigo, estou a ver que também tenho que tomar conta de ti. 

- Parvo! Vamos embora, sim?

- Parvo nada, já olhaste bem para ti? Estás linda...

- Pára com isso amor. - pedi-lhe ao sentir um calor enorme localizar-se nas bochechas.

- Não precisas de corar amor, eu só disse a verdade.

- Vamos embora, estás a deixar-me envergonhada.

Saímos de casa e fomos no carro dele até à Costa da Caparica, onde era o hotel. Quando lá chegámos, ele estacionou o carro e entrámos, dirigindo-nos à recepção onde perguntei pelos meus pais. Esperámos um pouco nos sofás e pouco depois vimo-los a sair do elevador.

- Filha! - dizia a minha mãe.

- Olá mãe, pai...

- Boa noite, cumprimentava também o Ruben.

- Boa noite! - respondeu o meu pai esticando a mão para o cumprimentar, enquanto a minha mãe me dava um beijinho.

- Olá Ruben! - dizia a minha mãe cumprimentando-o de seguida com dois beijinhos.

- Sr. Marques, a sua mesa está pronta. - dizia um dos empregados do hotel.

- Obrigado. - respondeu-lhe - Vamos entrando?

- Sim. - respondemos todos ao mesmo tempo.

Entrámos no restaurante e o empregado indicou-nos a nossa mesa, era uma mesa junto à janela num dos cantos da sala. Os homens puxaram as nossas cadeiras e depois de nos sentarmos, sentaram-se eles. Eu estava sentada com o Ruben de um lado, a minha mãe do outro e à minha frente o meu pai.

- Então meninos já vi que fizeram as pazes. - começou a minha mãe.

- Sim, ontem decidimos começar outra vez. Mas depois que os pais chegaram chateámos-nos outra vez.

- Porquê filha? - perguntou o meu pai.

- Por culpa da praia, do mar e da lua. - respondi trocando um olhar cúmplice com o Ruben.

- Como assim filha?

- Estava a brincar. Chateámos-nos porque eu nunca contei ao Ruben que os pais eram donos do hotel.

- Sempre a mesma Clara, mas eu não acredito que não contaste nada ao Ruben filha.

- Ó mãe, sabe perfeitamente que não gosto de falar de mim. - olhei para o Ruben que também me olhava - Mas agora já está tudo esclarecido, estamos bem e não há mais motivos para chatices.

- Sim, todos erramos, antes fui eu e agora foi a Clara, mas o importante é que resolvemos as coisas e estamos bem. Queria aproveitar para lhes pedir desculpa por ter feito sofrer a vossa filha, mas como lhe expliquei a ela, agi sem pensar.

- Não tens que nos explicar nada Ruben, o que interessa é que vocês gostem um do outro e se respeitem...

- Sim, isso pode ficar descansada, eu amo a vossa filha. O tempo que estivemos separados foi das piores alturas da minha vida.

- Vá parem lá com essa conversa, vocês estão muito lamechas para o meu gosto. Mudando do assunto, pai afinal sempre assinou o contrato de compra do hotel?

- Sim, assinámos esta tarde. E eu queria falar contigo sobre isso, filha preciso que venhas gerir o hotel...

- Nem pense nisso pai, eu tenho o meu trabalho na empresa e não posso sair de lá assim...

- Filha, o teu pai precisa da tua ajuda. Com o do Algarve nós compreendemos que não quisesses ir para lá, mas agora com dois tens que dar uma ajuda...

- Mãe por favor, eu tenho o meu trabalho, não posso abandonar o barco agora. Vocês sabem que eu adoro o meu trabalho e ainda por cima agora com o projecto...

- Amanhã vens almoçar connosco, tenta tirar a tarde para vires conhecer o hotel e depois decidimos.

- Não se ponha com ideias pai, isso não é assunto para falarmos agora.

- Sim Raul, depois falamos.

A conversa sobre o hotel ficou por ali, o resto do jantar foi super animado, os meus pais e o Ruben estavam a dar-se muito bem. Combinámos no dia seguinte ir almoçar com eles novamente, os meus pais fizeram questão que o Ruben também fosse.
Quando íamos no carro o Ruben abordou o assunto do jantar.

- Amor?

- Sim...

- Porque não queres ir gerir o hotel dos teus pais?

- Porque não quero, porque aquilo não me diz nada.

- Mas ali não tinhas ninguém a mandar em ti, eras tu a mandar nos outros... - disse-me a rir-se.

- Parvinho... 

- Vá, conta lá o verdadeiro motivo para não quereres aceitar...

- Tenho medo...

- Medo de quê princesa?

- Ruben, eu na empresa tenho as minhas responsabilidades, tomo as minhas decisões, mas também tenho sempre alguém acima de mim que me orienta e me ajuda em algumas decisões. Não é só minha a responsabilidade, há trabalho de equipa. Se eu fosse para o hotel não, acima de mim só ia ter o meu pai, se eu fizer borrada como vai ser? 

- Amor, mas aí está o desafio.

- Desafio? Isto não é desafio, é mesmo suicídio profissional.

- Sempre exagerada Clara... 

- Exagerada nada, só estou a dizer a verdade.

Aquela conversa ficou por ali e o resto do caminho foi feito em silêncio. Quando chegamos a casa fui buscar um saco com roupa, ele tinha-me pedido para dormir em casa dele e eu acedi ao pedido, as saudades já eram muitas.