segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Capítulo 71 - A vida tem a cor que lhe damos

(narrado pela Guigui)

- Mena, não te vens despedir dos teus filhos? - o meu pai não estava a perceber a atitude da minha mãe. Vi-a aproximar-se cabisbaixa. Deu um beijo ao Santiago, outro a mim.

- Um dia vais-me perceber querida.

- Foste tu que escolheste assim mãe! Adeus pai, adoro-te. - a raiva apoderou-se do meu irmão. Deu um forte abraço ao meu pai e deu a mão à Carol - Vamos?

O Javi olhava-nos confuso. Vi no rosto da Carol que tinha percebido o porquê daquela reacção do meu irmão. Aquela atitude da minha mãe tinha sido para mim como um soco no estômago, nos meus olhos começavam a aparecer algumas lágrimas e a minha voz teimava em não se manifestar. Aproximei-me do meu pai e abracei-o, ao que ele me correspondeu com um forte abraço, reconfortante até, dado o momento.

- Adoro-te filha. - ouvi-o sussurrar-me antes de me afastar e me sorrir.

O Javi despediu-se dos meus pais. Mais uma vez a minha mãe fez questão de mostrar o seu desagrado relativamente a ele. Saímos de seguida e dirigimo-nos ao estádio. O jogo não correu muito bem, os nossos jogadores passaram todo o jogo a escorregar, no entanto conseguimos trazer uma vitória. No final do jogo esperámos todos juntos pela equipa e seguimos até Lisboa atrás do autocarro. A Clara estava super preocupada com o Ruben, no entanto todos nós tentávamos descansá-la. O caminho até Lisboa foi rápido, fomos levar o Santiago e a Carol a minha casa e seguimos para casa do Javi. A conversa da minha mãe mantinha-se na minha memória, o que me deixou algo distante durante toda a viagem. O Javi tinha notado e, embora durante a tarde tivesse tentado perceber o que se passava, tentei sempre desviar a conversa. Na viagem de regresso a casa ía perdida nos meus pensamentos quando despertei com a sua voz.

- Princesa, vais-me dizer agora o que se passa? Estás-me a deixar preocupado...

- Desculpa amor, 'tava distraída. Não se passa nada.

- Já percebi que alguma coisa se passa, mas gostava de perceber o quê linda... Passaste todo o dia assim.

- Parvoíces minhas, não ligues. Amanhã tens treino a que horas amor?

- Às 17h, porquê?

- Para saber só. Assim posso-te ir ver. - sorri-lhe enquanto colocava a minha mão sobre a dele.

Rapidamente chegámos a casa. Como estávamos os dois super cansados fomo-nos deitar. O Javi ainda tentou mais algumas vezes perceber o que se passava, se bem que eu tentei sempre fugir ao assunto. No dia seguinte acordei super cedo novamente. A questão da viagem e da minha mãe atormentavam-me a cabeça e impediam-me de dormir. Levantei-me cuidadosamente de forma a não acordar o Javi e dirigi-me à sala. Sentei-me no sofá e senti o Buba vir para perto de mim.

- Pois é Buba, isto está complicado… - ele saltou para o meu colo e lambeu-me a cara – Ó seu tolinho, também gosto muito de ti. Queres ir à rua, não é? – ele respondeu abanando a cauda – Vamos lá então.

Voltei ao quarto e vesti o fato de treino, peguei num casaco bem quente, no telemóvel, nas chaves e saí com o Buba atrás de mim. Comecei a caminhar e sem dar por isso estava já na marginal. Caminhei ao longo do passadiço e desci para a praia. Sentei-me na areia enquanto via o Buba correr pela praia. No mar estavam alguns surfistas. Fiquei a olhá-los enquanto pensava. Pensei nos prós e contras da viagem que o Tiago me tinha oferecido, pensei no que a minha mãe me dizia, nas palavras do Santiago… A última coisa que queria era que eles deixassem de se falar novamente. Estava perdida nos meus pensamentos quando despertei ao ouvir o telemóvel a tocar. Olhei para o visor e vi que era o Javi.

- Bom dia amor, já acordaste?

- Bom dia guapa. Sim, senti a tua falta. Onde andas?

- Vim passear o Buba e entretanto perdi a noção do tempo. – nesse momento começo a sentir uns pingos a caírem sobre o meu rosto – Ó que raio de sorte!

- Que foi princesa?

- Nada de especial, começou a chover. Vai-te arranjando que eu vou já para casa. Daqui a 20 minutos estou aí.

- 20 minutos?! Mas onde é que tu estás Margarida?!

- Que horror, não me chames Margarida! ‘Tou na marginal mas vou já para aí.

- Princesa, protege-te da chuva que vou-te já buscar.

- Não é preciso amor, ‘tou mesmo perto.

- Margarida, suponho que não queiras ficar doente. Protege-te da chuva que vou-te já buscar. – senti-o sobressaltado.

- Amor…

- Nem amor nem meio amor. Vai-te proteger antes que me chateie contigo. Até já.

- Ok chefe. Fico à tua espera ao pé do jardim. Até já. – ouvi-o desligar o telefone e desliguei também eu de seguida. Com a chuva o Buba tinha-se aproximado de mim, também ele queria voltar para casa – Vamos embora Buba, o teu dono vai-se zangar comigo…

Saí da praia e dirigi-me para o local combinado. Quando estava a chegar vi o carro do Javi já lá parado. Abri a porta de trás para o Buba entrar e entrei de seguida para o local do pendura. Tinha já o cabelo um pouco molhado, pelo que o puxei para o lado de forma a que o Javi não se apercebesse.

- Obrigado amor. – disse olhando para ele. Vi-o desviar o olhar de novo para a estrada e arrancar em seguida. Não proferiu uma única palavra até chegarmos a casa. Mal entrámos dirigiu-se ao quarto, sempre em silêncio e eu segui-o.

- Javi, vais continuar sem falar comigo? – coloquei-me à sua frente de forma a obrigá-lo a olhar-me.

- Margarida, estás há dias estranha, não falas comigo, não me explicas o que se passa. Ontem ainda estavas mais estranha. Eu tento falar contigo, tento que me expliques o que se passa, tu não o fazes, porque é que hei-de falar contigo agora?

- Amor, não sejas assim. Já te disse que não é nada… - tentei aproximar-me dele, no entanto ele não deixou.

- Quem é que queres convencer disso Margarida, a ti ou a mim?

- Amor, desculpa… - encostei-me à parede e deixei-me escorregar acabando por me sentar no chão, cruzei os braços sobre os joelhos e apoiei a cabeça. Senti o Buba aproximar-se de mim e vi o seu focinho aparecer de baixo dos meus braços. Do meu rosto começavam a cair algumas lágrimas.

- Margarida, estou a começar a ficar preocupado. Vejo-te distante, acordas todos os dias super cedo e ou ficas perdida em pensamentos ou agarras-te ao projecto, não falas comigo… Mereço uma explicação. Tenho-te dado espaço, pensava que era disso que precisavas, mas vejo que nem isso está a funcionar. – senti a sua mão levantar o meu rosto e obrigar-me a olhá-lo, enquanto a outra limpava as lágrimas que escorriam – Preciso que fales comigo princesa, não te posso ajudar se não souber o que se passa…

- Amor, confias em mim?

- Sabes que sim Margarida…

- Então dá-me só mais uns dias. Eu prometo que depois te explico tudo. Dá-me só mais uns dias, não te peço mais que isso.

Ele assentiu e abraçou-me. Um abraço firme e reconfortante, que me deu a força que precisava naquele momento. Correspondi àquele abraço e dei-lhe um beijo suave na testa, um beijo de respeito. O Javi levantou-se e puxou-me com ele até à casa-de-banho. Tomámos um banho rápido, vestimo-nos e saímos de casa. Almoçámos juntos e à tarde dirigimo-nos ao centro de estágios. O treino não era aberto ao público e, como nenhum jogador tinha trazido companhia para o treino, eu era a única pessoa externa ao plantel e equipa técnica a assistir ao treino. Estava a encaminhar-me para as bancadas quando ouvi alguém chamar-me.


- Guigui?

- Sim? – disse voltando-me para trás – Desculpe, não vi que era o Mister… Precisa de alguma coisa?

- Ía só perguntar-lhe se não quer assistir ao treino aqui em baixo? Afinal não tem companhia e aqui sempre se distraia mais. Já vi que hoje está a precisar disso.

- Estou mesmo… Mas não há problema de ficar aqui? Não quero atrapalhar… - neste momento começavam os jogadores a sair do balneário.

- Claro que não. Até gosto de a ver aqui em baixo, os rapazes até se portam melhor.

Sorri-lhe e sentei-me no banco de suplentes. O treino correu normalmente, o Ruben não tinha aparecido em campo uma vez que estava a ser avaliado. No final do treino a maior parte dos jogadores dirigiram-se aos balneários, no entanto vi que o David, o Fábio, o Júlio César e o Roberto permaneciam em campo. Achei estranho e aproximei-me do Mister. Antes de ter tempo de lhe perguntar alguma coisa ele esclareceu-me.

- Apostas, menina… Este rapazes são sempre a mesma coisa…

Olhei para ele e ele riu-se. Como o Javi ainda ía demorar a sair, ficámos ali a observar a brincadeira daqueles quatro. Enquanto o Fábio e o David se divertiam, via que o Roberto e o Júlio já estavam fartos daqueles dois. A certa altura fartaram-se e acabaram por ir embora. Vi o Júlio, o Roberto e o Fábio encaminharem-se para os balneários enquanto o David se dirigia na minha direcção.

- E aí garota, que é que se ‘tá passando?

- Oi?

- Cê ‘tá aí com a cabeça na lua… Quer falar?

- Nota-se assim tanto?

- Pô, além de notar o Javi já falou p’rá gente que cê anda estranha… Eu até tenho quase a certeza que sei o que ‘tá passando. – olhei-o surpresa – É por causa da viagem, né?

- Como é que sabes?

- Eu já vou conhecendo você Guigui… Cê sabe que eu adoro implicar, mas só faço isso porque simpatizo com você.

- Eu também gosto muito de ti David. – disse deitando-lhe a língua de fora – Bolas, mas não estava nada à espera que te apercebesses do que se passa…

- Cê quer falar?

- Isto está a dar comigo em doida David… Eu quero imenso fazer esta viagem, mas não me quero afastar do Javi, não agora…

- Cê tem que se decidir…

- Pois, eu sei… E tenho que falar com o Javi também.

- Cê já decidiu?

- Acho que sim…

- O Javi ama você, independentemente da sua decisão, não se preocupa não… Se precisar eu ‘tou aqui, eu sei que você tem muita gente com quem falar, mas aacho que nunca é demais saber quem ‘tá aqui p’ra te apoiar.

- Obrigado ovelhinha… - sorri-lhe.

- Até eu sendo simpático, cê fica zoando comigo… Cê não resiste!

- Não resisto mesmo. Obrigado David, a sério. Como tu dizes, obrigado, de coração. E fica sabendo que também estou aqui se precisares, ‘tá bom?

- ‘Tá sim! Agora vamos embora que senão seu namorado daqui a pouco ‘tá com ciúmes…

- Ui, deve ser isso. Vamos lá.

Seguimos até ao interior do edifício. O Javi já tinha saído e estava à conversa com o Roberto que estava também já arranjado. O David encaminhou-se para o balneário enquanto eu fui ter com eles.

- Onde andavas princesa?

- Desculpa amor, ‘tava na conversa com o David… Despacharam-se rápido!

- Eu sou mais despachado que eles… - disse o Roberto piscando-me o olho – Você não querem vir jantar comigo e com a Marta?

- Por mim…

- Amor, se não te importares e se não levarem a mal, eu gostava de jantar só contigo hoje… Importas-te Roberto? – disse virando-me agora para ele.

- Claro que não. Fica para amanhã ou assim. Vou andando então. Adeus. – despediu-se de nós e saiu.

- E nós, vamos embora também?

- Sim.

Dirigimo-nos ao carro e seguimos para casa. Quando chegámos eu encomendei o jantar e pus a mesa enquanto esperávamos. O jantar chegou e sentámo-nos a comer.

- Princesa, querias jantar só comigo. Alguma razão especial?

- Sim amor, preciso de falar contigo.

- Passa-se alguma coisa? – o seu rosto transparecia preocupação.

- Nada de grave, espero. Relaxa…

- Já decidiste se vais aceitar a viagem?

- Já…

- E então?

sábado, 29 de janeiro de 2011

Capítulo 70 – Quero estar contigo num momento chamado sempre

(Narrado pela Clara)

Ele foi substituído e foi sentar-se no banco, eu estava numa pilha de nervos. Todos me diziam “Calma Clara, ele está bem…”, mas eu não conseguia acreditar. Se ele estivesse bem não precisava de ser substituído. Continuei nervosa até ao fim do jogo que tardava em chegar, o resultado não se alterou e ganhámos por 0-1. Vi todos os jogadores a dirigirem-se à bancada para agradecer o apoio dos adeptos, levou algum tempo até o Ruben me descobrir e quando o fez, vi que ele reparou na minha preocupação. Esboçou um sorriso para me descansar, coisa que não aconteceu. Quando saíamos do estádio o telemóvel tocou:

- Amor?!

- Linda eu estou bem, só fui substituído por precaução. Não te preocupes.

- Juras?

- Juro, está tudo bem comigo princesa. Vão já seguir para baixo?

- Não, vamos esperar por vocês e seguimos atrás. Assim chegamos lá ao mesmo tempo.

- Está bem. Beijinhos, amo-te. Vai com cuidado.

- Sim, vou. Eu também te amo. Até logo.

O caminho para baixo fez-se bem, fomos o tempo todo atrás do autocarro. Quando chegámos despedimo-nos de todos e fomos para o carro, a Sara e o David seguiram no carro dele que estava no Estádio.

- Amor, estás bem de certeza?

- Sim, não te preocupes.

Quando chegámos a casa dele, ele insistiu para eu dormir lá.

- Fica Clara.

- Não posso amor, amanhã quero ver se vou para a empresa mais cedo. Hoje não fiz nada do projecto e quero ver se amanhã o adianto.

- Não podes fazer isso na Terça-Feira? Fica comigo, vá lá…

- Ruben não insistas, eu não posso mesmo.

- Não é justo Clara. Hoje não tivemos tempo nenhum juntos, eu sinto a tua falta.

- Pára com isso, estás a ser infantil… Sabes perfeitamente que eu tenho feito de tudo para estar contigo, até ao lar eu vou com menos frequência…

- Tu é que sabes… Eu não vou insistir mais.

Despedimo-nos e eu segui para casa. O dia seguinte foi normal, o novo projecto ocupava-me grande parte do dia, até o almoço era à pressa. Estava bastante entusiasmada, era algo muito bom para a minha carreira e estava a dar-me muito gozo. Tanto gozo que eu esquecia-me do tempo. Foi o que aconteceu, tinha combinado jantar com o Ruben e esqueci-me completamente. Cheguei a casa já perto das 20h e ele estava fulo.

- Boa noite…

- Boa noite?! É só isso que tens para dizer?

- Ruben, calma…

- Mas tu está a brincar comigo?! Já estou à mais de uma hora à tua espera Clara, e tu agora chegas e dizes boa noite?!

- Amor não vi as horas, calma… Estive de volta do trabalho e esqueci-me das horas…

- Fogo Clara! Combinámos ir jantar, lembras-te?

- Sim, já pedi desculpa amor. Vou só mudar de roupa e já desço. Vamos jantar onde?

- Depois vês, despacha-te… Clara?

- Sim. – respondi-lhe já ia a meio da escada.

- E o meu beijo?

Desci a escada e abracei-o.

- O seu beijo está aqui Sr. Amorim… - disse-lhe beijando-o de seguida – Vá, agora vou-me vestir.

Não demorei muito tempo e quando voltei a descer saímos. Ele levou-me a jantar a um restaurante no Parque das Nações e comemos rodízio. Ele adorava e deliciou-se, eu ao fim do segundo pedaço de carne já estava cheia.

- Não comes mais?

- Não amor, não tenho vontade. Então, como correu o treino? Avaliaram-te? Estás mesmo bem?

- Sim, estou óptimo. Foi só um toquesinho, vou trabalhar limitado para já, depois logo se vê.

- Então não estás bem…

- Estou sim Clara, é só por precaução.

- Amor, de certeza?

- Sim, eu estou mesmo bem, não precisas de te preocupar.

- Ok, mas promete que se acontecer alguma coisa me dizes…

- Está prometido… - olhou para mim e riu-se…

- Que foi? Estás-te a rir de quê?

- Adoro ver a minha menina preocupada comigo. Deve ser para compensar ter-se esquecido de mim hoje.

- Não digas isso amor, não foi por mal, é que agora estou a fazer uma cena que gosto mesmo.

- Mas conta lá afinal que raio de trabalho é esse.

Eu lá lhe contei do trabalho, ele estava bastante interessado e ouvia com muita atenção tudo o que eu dizia. Acabámos de jantar, tomámos café e seguimos para casa.

- Amor, ficas lá em casa hoje? – perguntou-me.

- Não, amanhã sabes que trabalho e também ainda quero ir pegar no projecto.

- Mas agora é só trabalho Clara?

- Amor, eu agora trabalho a dobrar, tenho o projecto para fazer e ainda tenho que fazer todo o trabalho que fazia antes. Eu disse que isto me ia ocupar mesmo muito tempo.

- Pensei que tivesses algum tempo para mim, mas tu tens as tuas prioridades...

- Amor…

- Esquece Clara. - entretanto chegámos a casa – Até amanhã.

- Amor, pára lá…

- Esquece…

- Ruben, por favor não fiques assim.

- Já te disse para esqueceres, até amanhã.

- Até amanhã.

Saí do carro e vi-o seguir para sua casa. Ele tinha ficado chateado e acabava por ter alguma razão. Resolvi subir e ir fazer uma pequena mala, meti-me no carro e fui para casa dele.

- O que estás aqui a fazer?

- Vim ter contigo. Amor, não dificultes…

- Entra… Essa mala é para quê?

- Para que achas que é? Ruben…

Sorriu e puxou-me para o sofá. Ficámos a ver um filme e a namorar, no final do filme fomos dormir. Acho que tomei a decisão certa, soube-me muito bem dormir ao seu lado. De manhã acordei com o despertador, fui-me arranjar e ele ficou a dormir.

- Amor, vou embora, até logo. – dei-lhe um leve beijo, pois pensava que ele ainda dormia.

- Almoças comigo? Eu vou-te buscar. – perguntou ao puxar-me para ele.

- Não dá amor, eu provavelmente vou comer alguma coisa na empresa.

- E jantar?

- Ruben eu queria ir ao lar…

- Ok, depois de ires ao lar, eu peço qualquer coisa para comer e jantamos aqui…

- Sim, está bem. Até logo.

- Até logo, amo-te.

- Eu também.

Fui para o trabalho e depois da hora do almoço a Sara ligou-me:

- Oi amiga!

- Olá Clara, preciso de falar contigo…

- Então? Mas passa-se alguma coisa?

- Não, mas preciso de falar contigo… Achas que logo podemos jantar?

Demorei um pouco a responder, tinha o jantar combinado com o Ruben e não queria que ele ficasse chateado comigo – Amiga importas-te que te ligue daqui a 2 minutos? É que eu tinha o jantar combinado com o Ruben, mas estou a ver que precisas de falar…

- Clara deixa estar, falamos depois…

- Nem penses, vou ligar ao Ruben, tenho a certeza que ele vai compreender…

- Não Clara, eu também não queria que ele dissesse nada ao David… Não desmarques nada, falamos depois…

- Não te preocupes, vamos jantar sim. Eu vou só ligar ao Ruben e já te ligo a confirmar.

- Obrigada amiga.

- Não tens que agradecer. Até já…

Desligámos e de seguida liguei ao Ruben.

- Olá fofinha!

- Amor, preciso de te pedir uma coisa…

- Diz…

- Achas que podemos marcar o jantar para amanhã?

- Mas porquê Clara?

- Porque eu te estou a pedir… Vá lá amor, não faças perguntas, eu depois falo contigo.

- Amanhã? Queres marcar o jantar para amanhã?

- Sim…  Não te importas?

- Claro que não, estou sempre ao teu dispor, não é?! Amanhã falamos…

- Beijo, logo eu ligo-te…

Desliguei e voltei a ligar à Sara, combinámos ir ao Colombo. A tarde passou e eu saí há hora, passei em casa para ir buscar a Sara e seguimos para o Colombo. Fomos jantar à Portugália e enquanto esperávamos pelo comer resolvi perguntar o que se passava.

- Então conta lá… Estás muito tristinha, que aconteceu?

- Estamos em Janeiro…

- Ok, já percebi. Época de transferências, mas já sabem de alguma coisa?

- Acho que ele já recebeu propostas… Boas propostas…

- Pois, calculo… Mas tem calma, não comeces já a stressar. Ele já falou contigo sobre a possibilidade de ir embora?

- Não, só me disse que havia propostas… Eu tenho medo de perguntar Clara, não quero que ele perceba as minhas inseguranças.

- Essas inseguranças são normais Sara, tem calma, não sofras por antecipação.

- Eu sei, mas não sei como hei-de agir com isto, não quero que ele saiba que tenho medo, mas também não quero que ele não evolua na carreira por minha causa! Estou um bocado perdida Clara.

- Dá tempo ao tempo amiga, como te disse, não sofras por antecipação…

Entretanto o jantar veio para a mesa e enquanto jantávamos a conversa continuou:

- Olha, outra coisa…

- Diz…

- O Ruben faz anos na próxima semana, queria fazer uma coisa especial mas não sei o quê…

- Porque não falas com a Bela? De certeza que se vocês prepararem alguma coisa ele vai adorar…

- Pois, acho que tens razão… Nem sei o que hei-de comprar para ele, tudo o que lhe possa dar vai parecer pouco, ele pode comprar o que quiser...

- E se lhe deres algo que ele não pode comprar…

- Pois, e o quê?

- Porque não o deixas fazer mesmo parte da tua vida…

- Mais?! Ele já faz parte da minha vida Sara…

- Sabes bem do que estou a falar… Porque não aceitas o pedido de casamento?

- Pára com isso, sabes bem que ainda é cedo…

- Achas mesmo? Não me parece Clara, ele ama-te e tu…

- Eu amo-o, é verdade… Mas não sei, acho que ainda é cedo.

- Imaginas outra pessoa ao teu lado?

- Não, ele completa-me em todos os sentidos.

- Então amiga, o que te impede de te entregares totalmente?!

- A Inês! Aquela amizade faz-me muita confusão, estou farta de a ter no meio de nós. Eu não me importava que ela fosse amiga dele se não tivesse nada contra mim, mas eu sei que ela não gosta de mim e que lhe mina a cabeça. Eu não posso fazê-lo escolher entre mim e ela, nem quero. Só queria que ela me desse tréguas, que compreendesse que eu gosto dele, gosto dele a sério…

- Eu compreendo amiga, mas vais ver que ela vai compreender, qualquer dia ainda vais ter uma surpresa…

- Assim espero. Mas percebes agora o porquê de não aceitar o pedido?

- Em parte sim, mas por outro lado acho que devias ficar com ele. Esquece a Inês, ela qualquer dia abre os olhos. Sê feliz com ele, Clara era a melhor prenda que lhe podias dar…

- Não sei, Sara… Tenho que pensar…

- Pois, acho que a minha amiga está prestes a mudar de ideias.

- Pára com isso parvinha… Olha, vamos indo?

- Sim…

Pagámos e fomos dar uma volta pelo centro comercial. A Sara fazia-me parar em todas a ourivesarias na tentativa de me mostrar o anel que o Ruben tinha comprado para mim.

- Anda só a esta, prometo que é a última…

- Tu és teimosa... Anda embora eu não quero ver o anel, só quando ele me pedir.

- Não sejas parva, anda lá. – disse agarrando-me na mão e puxando-me para dentro da ourivesaria.

- Sara…

- Olha! É parecido a este… Anda cá… - chamou-me – Eu sei que queres ver.

Aproximei-me e vi, era realmente lindo – Eu não acredito, mas é igual?

- Não, mas é parecido, o outro é bem mais bonito… Porque não pedimos para exprimentares? Tenho a certeza que mudas de ideias rapidamente…

- Não… Vamos embora já, não quero ver mais nada.

- Ai Clara, vá lá… Diz lá que não tens vontadinha nenhuma de o veres no teu dedo?!

- Sara, não me tentes… Por favor…

Ela sorriu e dirigiu-se à empregada, pediu o anel e pouco depois a empregada da loja trazia-o.

- Eu não acredito nisto…

- Cala-te e põe isso no dedo.

Fiz o que ela pediu, pus o anel no dedo…

- Amiga fica tão bem… Tens de aceitar Clara…

- Eu não acredito que tu me convenceste a fazer isto…

- Não te queixes… Diz lá que não ficaste com uma vontade enorme de casar?!

Olhei para o meu dedo, amei ver aquilo. A verdade é que a Sara tinha razão, entrei no “mundo dos sonhos” e deu-me uma vontade súbita de aceitar o pedido de casamento do Ruben.

- Sim… Se ele estivesse aqui agora, eu não tinha como negar…

- Não?! – perguntava uma voz atrás de mim.