sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Capítulo 1 - O dia-a-dia

(narrado pela Clara)


Eram 18h e estava com uma neura, tinha tido um dia daqueles em que nem devia ter saído da cama, um humor péssimo. A Bá e o Tiago já tinham saído, e eu fiquei a acabar um relatório, para depois ir ter com eles. Pela primeira vez desde de que tinha iniciado as minhas visitas ao lar de acolhimento de crianças e jovens – Florinhas , que me apeteceu ir directa para casa, mas eu sabia que aquelas visitas me faziam bem, eu adoro crianças desde sempre, e elas têm uma ingenuidade que era o que eu precisava no momento.

 Quando cheguei, faltava dar banho à Luísinha – ela era uma menina de 5 anos, tinha um sorriso enorme, era bastante irrequieta e bem-disposta – entrei na casa de banho das meninas e ouvi a Bá:

- Luísa, chega de birra, levanta-te daí e entra já na banheira!

A Luísinha que estava sentada no chão ao lado do lavatório, nem uma pestana mexeu, como era normal quando fazia birra, nestas alturas ninguém lhe conseguia dar a volta, no entanto, parece que ela tinha uma relação comigo diferente da que tinha com o resto das pessoas do lar. Foi então quando eu resolvi tentar a minha sorte, pedi a Bá que fosse ajudar a dar o jantar às outras crianças, sentei-me no chão em frente da Luísinha e iniciei a minha tentativa de persuasão:

- Olá minha linda… - fiquei a espera que ela me respondesse, mas ela não estava para ali virada, foi então que decidi continuar – pareces tristinha? – ela olhou-me nos olhos e respondeu-me:

- Pois, mas tu também.

- Perspicaz a miúda – vi um pequenino sorriso na carinha dela e disse-lhe – queres-me contar porque estás chateada, que eu a seguir conto-te porque estou chateada também?

- Pode ser…

- Então vá sua porquinha, toca a entrar na banheira, e contar-me o que se passa menina…

Assim foi, ela entrou na banheira, abri a água e comecei a dar-lhe banho, de repente ela vira-se para mim e diz:

- A mãe esteve cá hoje… - fui apanhada de surpresa, nunca conheci a mãe da Luísinha, mas sabia perfeitamente da história daquela menina e do irmão. O irmão da Luísinha era dois anos mais velho que ela, chamava-se Miguel, e também estava entregue ao lar. Eram duas crianças que foram retiradas dos cuidados da mãe porque esta consumia droga, quer o Miguel quer a Luísa tinham presenciado situações que nenhuma criança deve presenciar.

Eu tinha um enorme carinho por aqueles meninos, gostava de todas as crianças do lar, todos eles embora crianças já tinham histórias de vida tristes e de sofrimento, mas não sei desde o primeiro dia que entrei naquele lar que aquela pequerrucha de olhos azuis tinha conseguido que eu me apaixonasse por ela, o que me levou a querer acompanhar a sua história de vida.
Respirei fundo e perguntei-lhe:

- E então, conversaste com ela?

- Não, o Miguel é que esteve com ela, a Joana só disse que ela teve cá, quando ela já tinha ido embora… - disse-me isto com olhinhos vermelhos. A Joana era a assistente social do lar – Eu sei que a mãe fez coisas feias, mas eu tenho tantas saudades dela. O mano viu-a, e eu também queria…

- Oh Luísa, sabes que tu és mais pequenina, hoje ela só devia poder ver o mano, vais ver que qualquer dia ela volta cá para te ver a ti.

- Não sei.

- Mas sei eu. E enquanto a mãe não te pode vir cá ver, eu estou aqui, para te dar muitos beijinhos. – disse-lhe.

- Agora és tu. – dizia ela.

Ela não se tinha esquecido que eu também estava triste, e lá me obrigou a contar-lhe o que se passava. Aquela miúda era única, ficava sempre fascinada quando ouvia as conversas dos grandes.
Terminei de lhe dar banho, vesti-lhe o pijama e dirigimo-nos ao refeitório. Já quase todos os meninos tinham acabado de jantar. Foi então que a Joana pediu silêncio, porque tinha uma surpresa para as crianças.

- Meninos, como é? Querem saber qual é a surpresa ou não?

- SIMMMMMM!! – responderam em coro.

- Então é assim, antes de mais queria perguntar aos nossos voluntários se têm disponibilidade de no sábado ficarem connosco o dia todo?

Os voluntários eram a Bá, o Tiago e eu. Nós olhámos uns para os outros com um ar incógnito e respondemos quase que em coro.

- Claro.

Ela continuou.

- Então é assim. Como todos sabem, o Lar recebe vários donativos, pois só desta forma é que conseguimos dar a todos vocês tudo o que precisam para o vosso crescimento e educação. Parte dos donativos recebidos vêm de uma Fundação que se associou a nós nas obras de restauração do ginásio, essa Fundação por acaso, pertence a um símbolo do nosso país… - as crianças estavam sem entender nada da conversa, e nós adultos a morrer de curiosidade, e a Joana continuou – pronto eu digo, a Fundação Benfica quer visitar as nossas instalações, e conhecer as nossas crianças, parece que vem o Presidente do Benfica, o Presidente da Fundação e alguns atletas.

As crianças ficaram eufóricas, gritaram, saltaram, estavam com os sorrisos estampados nos rostos.
Todos estávamos felizes, não só porque iríamos conhecer personalidades da nossa sociedade, mas também pelo objectivo da visita, que era a restauração do ginásio do lar.

Mais tarde quando cheguei a casa estava completamente estoirada, o dia podia não ter sido bom, mas a alegria daquelas crianças ao jantar foi como que uma renovação das minhas forças, estava feliz, aquela noite sem dúvida tinha-me deixado contente. Eu era uma enorme Benfiquista, sócia desde que nasci, e espectadora assídua dos jogos na Catedral, razão pela qual senti uma alegria enorme ao receber a aquela notícia. Como me sabia bem aqueles finais de tarde. De a um ano para cá que lá ia todos os dias ao fim da tarde, e ao fim de semana, umas vezes de manhã, outras a tarde, tinham sido aquelas crianças que me puxaram para cima na altura que eu mais precisei, as crianças, a Guigui, a Bá e o Tiago…


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