sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Capitulo 14 - O Dia de Surf (Parte IV)

(Narrado pela Clara)

A Joana tinha um karaoke com músicas de vários filmes da Disney. Eles estavam super divertidos e a certa altura a Luísa pediu-me para cantar com ela. Ainda tentei negar, mas era demasiado difícil dizer-lhe que não, então lá fomos nós cantar. Ela ainda não sabia ler, no entanto já sabia quase todas as músicas de trás para a frente e da frente para trás. Ela escolheu uma música que nós cantávamos sempre juntas. Eu adorava aquela música, era do filme “Corcunda de Notre Dame” e chamava-se “Longe do mundo”. Lá cantámos as duas muito alegres. A música era realmente muito bonita. Quem nos visse, concerteza não ia distinguir o adulto da criança, pois naquele momento era como eu me sentia. Uma criança, inocente e a divertir-se. Não tinha jeito nenhum para cantar, até desafinava bastante, mas não me importei… A música acabou e ela abraçou-se a mim e deu-me um beijinho que eu retribuí. Quando me levantei para dar lugar a outras crianças tinha 4 olhos postos em mim, duas pessoas com um enorme sorriso. Corei e dirigi-me à cozinha, senti que alguém me tinha seguido. Estava envergonhada, costumava ter aqueles momentos no lar, mas nunca com espectadores. Senti uma mão nas minhas costas…

- Então, fugiste porquê? – perguntou-me.

- Não fugi. Tenho fome, só vim buscar qualquer coisa. Preciso de falar contigo… - disse-lhe.

- Eu também quero falar contigo… Mas fala tu primeiro.

- Antes de mais, quero pedir-te desculpa. Sei que combinámos jantar, mas tive um jantar de trabalho. Eu juro-te que queria ser eu a avisar-te mas não tinha como, não tinha o teu número e não podia esperar até à hora que tínhamos combinado… Eu prometi que te compensava e falhei, desculpa-me… - quando acabei ele olhava-me nos olhos, não sabia bem se havia de continuar, se parava, a expressão dele não me transmitia nada, parece que estava à espera que eu continuasse, no entanto, de repente, sorriu-me.

- O teu telemóvel? – perguntou-me.

- Mas para que queres o meu telemóvel? – ele pediu-mo novamente. Acedi e dei-lhe o telemóvel.

- Agora já tens o meu número. – sorriu, e voltou-me a dar o telemóvel - Agora sei que em vez de um jantar, estás-me a dever dois!

- Dois jantares? – perguntei-lhe surpreendida – Mas eu pensava que estavas chateado comigo…

- Claro que não! Imprevistos acontecem mas, para que me possas avisar se houver um novo imprevisto, já tens o meu número e podes avisar-me. Depois dá-me um toque para ficar com o teu.

- Ok, combinado.

- Gostei muito de te ver ali a cantar…

-Não repitas uma coisa dessas! Eu normalmente canto, mas só no duche ou então quando a Luisa me pede… Mas tenho a perfeita noção que tenho voz de cana rachada.

- Pronto tens razão, expliquei-me mal. Gostei muito de te ver ali a divertires-te com eles, tens imenso jeito com crianças e vê-se a léguas que as adoras.

- Sim, é verdade, toda a criança adora outras crianças. – disse eu a rir – Agora a sério, eles neste momento são das coisas mais bonitas que tenho na minha vida. A inocência deles faz-me bem, e a verdade é que passo muito do meu tempo na companhia deles. Eu sempre disse que se um dia for mãe e se tiver possibilidades gostava de ter no mínimo 5 filhos.

-Wow, 5? Não são muitos? – perguntou-me surpreendido.

- São, mas acho que as crianças são a alegria de uma casa e a união de um casal, por isso, quantos mais melhor.

- Sim, por um lado tens razão, embora discorde de ti na parte da união do casal, acho que um casal que deixou de se amar, não é por causa dos filhos que vai ficar junto.

- Claro que não, mas quanto mais filhos um casal tem, maior é o amor existente entre os dois. Não estou a dizer que um casal com poucos filhos não se ame, os meus pais só tiveram 2 filhas e nunca duvidei do que sentem um pelo outro…

- Sim, é uma forma de ver as coisas, e então para quando combinamos o nosso jantar? Podia ser hoje…

- Podia se não tivéssemos que jantar aqui… Mas porquê tanta pressa?

- Tenho medo que fujas... – quando disse isto aproximou-se de mim. Olhei para o chão envergonhada e ele levantou-me a cara, fez com que eu olhasse nos seus olhos e continuou – E se fôssemos beber qualquer coisa depois de sair daqui? Quero mesmo estar contigo durante mais tempo.

- Ruben não vai dar. Eu deixei o meu carro no lar, tenho mesmo que voltar com as crianças. Combinamos para outro dia.

- Clara, por favor… – aproximou-se ainda mais de mim, já tínhamos os rostos quase colados, eu olhava-o nos olhos e ele olhava os meus. Senti-o avançar o que faltava e o toque dos seus lábios nos meus, deixei-me levar. Trocámos um leve beijo e quando nos afastámos senti uma lágrima cair, ele reparou – Desculpa! Não te queria deixar triste.

- Eu não estou triste, por vezes tenho é certos medos e agora tenho medo que este momento acabe… - disse-lhe envergonhada.

- O momento acaba só quando quisermos que acabe. – disse abrançando-me.

Neste momento entra na cozinha a Maria, que fica meio atrapalhada por nos ver tão próximos.

- Desculpem… - disse virando-se e saindo novamente.

- Bem vamos lá para fora, há quem precise de trabalhar… - disse eu, ao dirigir-me para a porta.

- Clara? – chamou-me – Vamos beber qualquer coisa logo? Eu depois levo-te ao lar para ires buscar o carro – Perguntou-me com uma cara tão fofinha… Não fui capaz de dizer que não.

- Sim, pode ser. Mas agora vamos.

Saímos da cozinha e fomos ter com os outros. O resto do dia passou normalmente, como é óbvio aquela conversa na cozinha não me saiu da cabeça o resto do dia.
Assim que o último grupo acabou a aula de surf, fomos para os balneários tomar banho e ajudar a vestir os miúdos, seguiu-se o jantar e depois um filme. As crianças estavam tão cansadas que algumas delas adormeceram a ver o filme. No final, a Joana agradeceu a iniciativa e seguiram em direcção ao lar.

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